Guiné-Bissau: a causa do nacionalismo e a fundação do PAIGC | António Duarte Silva
Cadernos de Estudos Africanos
9/10 | 2006 : Memórias Coloniais
Guiné-Bissau: a causa do nacionalismo e a fundação do PAIGC
António E. Duarte Silva
p. 142-167
Resumos
No pós-guerra, uma linha reformista liderada pelo Governador
Sarmento Rodrigues tentou fazer da Guiné uma «colónia-modelo», assente na
autonomia administrativa, no desenvolvimento económico-social e na aliança com
os indígenas muçulmanos. Foi um período de consolidação do aparelho colonial e
de coesão social. No início dos anos cinquenta o Governo português começou a
prevenir-se contra a descolonização, revogando o Acto Colonial, instalando a
polícia política e investigando os movimentos associativos. Na Guiné,
revelaram-se as primeiras perspectivas de independência política, mas a
subversão não veio do exterior nem foi desencadeada por associações
influenciadas pelo Islão; começou em Bissau, liderada por uma elite política
urbana e crioula, enquanto, na Europa, se tentava um movimento unitário de
libertação das colónias portuguesas. Em 1959, dois acontecimentos históricos
vão levar à passagem da agitação nacionalista para uma luta de libertação
nacional. Por um lado, o «massacre do Pindjiguiti», de que se faz aqui uma
investigação sistemática, assente em documentos e depoimentos inéditos ou pouco
divulgados; por outro, a reunião alargada de 19 de Setembro, «a mais decisiva»
(Amílcar Cabral) da história do PAIGC. Considerando a formação do movimento de
libertação nacional como um processo, vê-se, por fim, como só em 1960, após a
II Conferência Pan-Africana, de Tunes, e a «Conferência de Quadros das
Organizações Nacionalistas», de Dacar, se pode considerar concluída a fundação
do PAIGC.
Keywords :Guinea-Bissau, nationalism, PAIGC, liberation
movement
Palavras-chave :Guiné-Bissau, Nacionalismo, PAIGC, Movimento
de libertação
I. A Guiné e a nova escola colonial
II. Governo e subversão
III. O Partido Africano da Independência (PAI), o Movimento
Anti-Colonialista (MAC) e o Movimento de Libertação da Guiné (MLG)
IV. Cautelas do poder português
V. O massacre do Pindjiguiti
VI. O PAIGC, movimento de luta de libertação nacional
Dedicatória
Agradeço as sugestões do António de Araújo, Miguel Nogueira
de Brito e Teresa Abreu.
I. A Guiné e a nova escola colonial
1 Cfr. Marcello Caetano, 1977, Minhas Memórias de Salazar,
Lisboa, Verbo, p. 182.
1
Marcello Caetano, enquanto Ministro das Colónias de 1944 a
1947, prosseguira (já então) uma política de «evolução na continuidade» da
colonização portuguesa, cujos factores inovadores eram, por um lado, a
progressiva autonomia administrativa e o desenvolvimento económico e social das
colónias e, por outro, a cautela perante a conjuntura internacional do
pós-guerra e a ascensão das forças anticolonialistas, especialmente
norte-americanas. Ora, a colónia da Guiné foi escolhida como primeiro campo de
ensaio destes novos rumos da política colonial portuguesa. Para tal, Marcello
pretendia uma equipa que a saneasse «do ambiente de depressão e intriga», e
cujos trabalhos haveriam de começar «por um exaustivo conhecimento científico
das possibilidades da terra e da gente» e prosseguir através de uma «completa
ocupação sanitária, educacional e política». Portanto, o perfil do novo
governador apontava para «um oficial da Marinha de Guerra, corporação com tradições
tão ligadas à colónia»1. Esse oficial seria o capitão-tenente Sarmento
Rodrigues.
2 Ver, sobretudo, José da Silva Horta & Eduardo da Costa
Dias, 2005, «História da Guiné Bissau» in Fe (...)
3 António A. Peixoto Correia, 1980, «Notas sobre a acção do
Vire-Almirante Sarmento Rodrigues na Mari (...)
4 Henrique da Silva Horta, 1999, «O meu depoimento», in
AAVV, Almirante Sarmento Rodrigues (1899-1979 (...)
2
Nos cerca de três anos e três meses de exercício efectivo,
de 1945 a 1948, o governo de Sarmento Rodrigues vai reforçar a administração
colonial, tentar associar os guineenses à governação e construir a rede de
infra-estruturas indispensáveis à política de desenvolvimento2. Apesar de, na
época, a orientação ter causado «alguma controvérsia», esse triénio, resume
Peixoto Correia, produziu «obra de alcance e profundidade, porque a política
praticada atendeu às características sociais e étnicas locais e ainda por as
realizações haverem afectado todos os sectores»3. Segundo o Vice-Almirante
Silva Horta, Sarmento Rodrigues acreditou «sinceramente na doutrina oficial de
então», contactou toda a população, proibiu os castigos corporais, promoveu a
agricultura, a investigação científica e inúmeras obras, tornando «a Guiné
melhor» e pondo-a «no mapa»4.
5 Carlos Cardoso, s.d., A formação da elite política
guineense, Centro de Estudos Africanos (CEA/ ISC (...)
3
A sua política prosseguiu a estratégia (iniciada, antes do
«28 de Maio» de 1926, pelo Governador Velez Caroço) de privilegiar as alianças
com os muçulmanos (sobretudo fulas) e, por outro lado, expandiu o aparelho
administrativo, mediante o preenchimento do quadro de dirigentes com uma elite
metropolitana e a entrega da administração intermédia a cabo-verdianos e
mestiços (que também dominavam o sector comercial), envolvendo,
progressivamente, «alguns guineenses de côr escura»5.
6 Comandante Sarmento Rodrigues, 1952, p. 159.
7 Rosemary E. Galli, 1994, «A ausência de capitalismo
agrário na Guiné-Bissau durante o regime do Est (...)
4
De facto, Sarmento Rodrigues restringiu os poderes dos
régulos e manifestou-se «intransigentemente» contra o uso das violências em
relação ao trabalho dos indígenas, atitude que terá provocado diversas
«lamentações, de que os indígenas agora faziam o que queriam»6. Numa perspectiva
de economia política, terá adoptado um «populismo agrário», algo romântico, e
olhado para a Guiné como se fora «um pomar tropical»7.
8 Cfr. Diploma dos Cidadãos: relato da sessão do Conselho de
Governo da colónia da Guiné, de 20 de Se (...)
5
Outra medida significativa foi a aprovação do Diploma dos
Cidadãos, como ficou conhecido o Diploma Legislativo n.º 1364, de 7 de Outubro
de 1946, que reformava o chamado «Diploma dos Assimilados» (Diploma Legislativo
n.º 535, de 8 de Novembro de 1930), o qual, por sua vez, estabelecera as
condições em que os naturais das colónias podiam passar à condição de
«assimilados a europeus», definindo, desse modo, um estatuto pessoal, étnico e
hereditário, no caso aplicável aos guineenses de origem mas não aos caboverdianos
(que nunca estiveram sujeitos ao regime de indigenato). Na Guiné, a partir de
1946, passaram, portanto, a distinguir-se relativamente aos «indivíduos de
raça negra, ou dela descendentes» apenas duas categorias — os indígenas e os
cidadãos (ou «civilizados»)—, abolindo aquela terceira categoria de
«assimilado». Eram considerados indígenas os indivíduos de raça negra ou dela
descendentes que não preenchessem conjuntamente as seguintes quatro condições:
a) falar, ler e escrever português; b) dispor de rendimentos suficientes ao
sustento familiar; c) ter bom comportamento; d) ter cumprido os deveres
militares. As condições de passagem à condição de cidadão português (ou seja,
de «civilizado») eram enunciadas pelos artigos 2.º e 3.º, sendo o bilhete de identidade
o «o único documento comprovativo da qualidade adquirida de não indígena»
(artigo 4.º). A verdade é que este regime só em 1954 seria aplicado em Angola
e Moçambique pelo novo «Estatuto dos Indígenas», desenvolvendo a filosofia de
assimilação que enformara a revisão constitucional de 1951 e sendo o próprio
Sarmento Rodrigues Ministro do Ultramar. O referido Diploma dos Cidadãos,
disse-se então, era «o mais importante no género do Império Colonial
Português»8.
9 António Carreira, 1959, «A população civilizada da Guiné
Portuguesa em 1950», in BCGP, n.º 56, pp. (...)
6
Pelo censo de 1950, já excluídos os «assimilados», para uma
população presente de cerca de 500.000 indígenas, a população civilizada total
da Guiné cresceu para uns (escassos) 8.320 indivíduos, onde os portugueses
representavam 95,6% e os estrangeiros 4,4%; entre os portugueses, cerca de 58%
eram naturais da Guiné, 21% de Cabo Verde e 18% da Metrópole; quanto aos mais
importantes aglomerados urbanos, destacavam-se Bissau, em crescimento, com
3.792 residentes, e Bolama, em queda, com 884 residentes9.
10 Álvaro da Silva Tavares in Jaime Nogueira Pinto (org.),
1993, Salazar visto pelos seus próximos (19 (...)
7
Com o governo de Sarmento Rodrigues na Guiné começou, pois,
a formar-se «uma nova escola de política ultramarina»10. Esta escola colonial
propunha uma mudança na política portuguesa, quer jurídico-política, quer
ideológica: a primeira concretizou-se na revogação do Acto Colonial; a
segunda, apostou na promoção do «luso tropicalismo».
11 Discurso do Ministro Teófilo Duarte apud A. Rodrigues
& R Moita, 1949, «Crónica da Colónia — Nomeaç (...)
8
Mas a substituição de Sarmento Rodrigues demorou vários
meses, pois o novo Ministro das Colónias (1947-1950), Teófilo Duarte, alterou a
política prosseguida na Guiné, optando por um «administrador colonial» que
privilegiasse o incremento da produção agrícola. O Ministro considerava que as
obras do cais de Bissau e da ponte de Ensalma estavam a ser bastante custosas e
que os correspondentes 40 mil contos de empréstimos tinham de ter rápida
influência na vida da colónia. Por isso, as verbas de momento disponíveis no
orçamento local iriam ser concentradas em melhoramentos de importância vital
para a economia da colónia e esses eram, apenas, por um lado, a melhoria das
condições de navegabilidade das grandes artérias fluviais, e, por outro, o
incremento e mecanização da agricultura, sobretudo quanto à cultura de arroz, de
que a Guiné deveria ser o grande fornecedor da Metrópole. Ora, os resultados
da produção agrícola eram insuficientes e estavam longe de atingir, na opinião
do Ministro, «as quantidades compatíveis com a área, com a população e com as
faculdades de trabalho dos habitantes da Guiné». Com efeito, a exportação de
amendoim — que em 1939 era de 32 mil toneladas — tinha andado sempre à volta
desse número, atingindo o máximo em 1947 com 38 mil toneladas; o mesmo
aconteceu com a exportação de coconote, que passara de 12 mil para 14 mil
toneladas, enquanto a de arroz baixara de 4.900 para 1.700 toneladas. Aliada a
esta questão estava o problema demográfico, pois a população da Guiné era
escassa, havendo «necessidade imperiosa de uma campanha em larga escala a favor
da infância», procurando reduzir, para metade «pelo menos, a brutal mortalidade
infantil»11.
12 Discurso do Governador Raimundo Serrão, ibidem, p. 748.
9
Finalmente, por decreto de 2 de Junho de 1949, acabou por
ser designado Governador da Guiné o capitão de engenharia Raimundo António
Rodrigues Serrão, cujo auto-retrato evidenciava um «soldado do Estado Novo e
soldado de Portugal». Creditado com 19 anos de permanência em Angola — onde
trabalhara como engenheiro e em cargos administrativos (designadamente como
Governador em quatro províncias) — exercia funções, à data, no Ministério das
Colónias, em Lisboa. Amigo e colega do Subsecretário de Estado das Colónias,
Rui de Sá Carneiro, o novo Governador Raimundo Serrão não conhecia a Guiné, não
trazia qualquer programa de governo, pois a sua «traça superior [competia],
aliás, ao Ministro das Colónias» e, conforme lhe fora sugerido, dispunha-se
tão-só a «concluir as obras iniciadas e dar andamento aos problemas em
curso»12.
10
Entretanto, a reeleição presidencial de António Óscar de
Fragoso Carmona, em 13 de Fevereiro de 1949, tinha tido pouco impacto. Segundo
informações da secção local da União Nacional (partido único na Metrópole e
colónias), haveria 1.929 eleitores inscritos na Guiné. Ter-se-ão abstido 716 e
a União Nacional informava mesmo que 503 abstenções foram «voluntárias»,
enquanto as demais 213 se deveram a «ausentes, mortes e presos». Votaram,
pois, 1.213 eleitores: 1.184 a favor do candidato e 11 contra (4 votos em
Bissau, 1 em Bafatá, 4 em Cacheu e 2 em Fulacunda), pelo que é (só) de cerca de
62% quer a percentagem de votantes sobre o total de inscritos quer a
percentagem dos votos favoráveis à reeleição do Presidente Carmona. Destaque-se
o escasso número de eleitores e de votos recalcitrantes e sua dispersão
geográfica.
11
Pouco depois, com vista às eleições para a Assembleia
Nacional, marcadas para 13 de Novembro de 1949, as autoridades de Bissau
prepararam «Uma bem orientada campanha da qual fez parte uma importante sessão
de propaganda». Na «vasta sala» do tribunal da comarca, após a intervenção
inicial do presidente da União Nacional, os três oradores (seleccionados em
representação, respectivamente, dos portugueses da Metrópole, dos portugueses
de Cabo Verde e dos portugueses da Guiné) restringiram-se à «apologia do
candidato pela Guiné, enaltecendo a obra do Estado Novo». Encerrou a sessão o
Governador Raimundo Serrão, recordando ter pertencido aos «tempos dos Tenentes
do 28 de Maio de 1926» e ser daqueles que foram buscar Salazar a Coimbra; disse
lamentar «a ausência da oposição na presente campanha eleitoral», concluindo
com uma «alta lição de patriotismo e de afecto ao Estado Novo». Quanto aos
resultados do sufrágio, perante 1.643 inscritos, votaram 1.451 eleitores,
correspondentes — acrescentava-se — «a uma percentagem-recorde de 93% no total
geral». O que significa que, entre a eleição presidencial de Fevereiro e esta
eleição parlamentar, ainda diminuiu o número de recenseados e de eleitores. O
Ministro das Colónias celebrou, telegraficamente, o resultado, mas quanto ao
candidato único (tratava-se do tenente-coronel Ricardo Vaz Monteiro, que havia
sido Governador da Guiné entre 1941-1945) nem esteve presente a qualquer acto
eleitoral, nem foi citado nos discursos, tendo-se limitado a uma mera
«alocução» à colónia.
13 Franco Nogueira, 1980, Salazar — Volume IV — O Ataque
(1945-1958), Coimbra, Atlântida, pp. 190-191.
12
No início dos anos cinquenta, perante a ameaça da
descolonização, Salazar decidiu finalmente eliminar o Acto Colonial, desencadeando
em Março de 1950 um processo de revisão constitucional antecipada. No seu
decurso concluiu, em Agosto de 1950, uma remodelação ministerial e, quanto ao
Ministério das Colónias, a substituição de Teófilo Duarte, não terá sido nada
fácil, visto que as questões de Goa, de Macau, de Timor, e o ambiente
internacional sobre África não só impunham «maior actividade ao departamento e
um ministro firme» como exigiam alguém «com ligações ou contactos em círculos
ideológicos internos variados»13; Salazar hesitou, até que se decidiu por
Sarmento Rodrigues.
13
Com a aprovação do novo texto constitucional, em 1 de Maio
de 1951, foi revogado o Acto Colonial, as suas disposições integradas na
Constituição, mediante a abolição da terminologia evidentemente colonialista,
substituída pelas expressões Ultramar Português e Províncias Ultramarinas,
tendo, enfim, saído reforçado o princípio da unidade nacional de um Estado
português pluricontinental. Por isso, a partir de 15 de Junho de 1951, o
Ministério das Colónias passou a designar-se Ministério do Ultramar e, pelo
Estatuto de 1955 (Decreto n.º 40 223, de 5 de Julho de 1955), a Guiné
Portuguesa passou a ser «a província da Guiné», ou seja, uma pessoa colectiva
de direito público gozando de autonomia administrativa e financeira, de
harmonia com a Constituição Política e a Lei Orgânica do Ultramar, cujos
órgãos de governo próprio eram o governador e o Conselho de Governo.
II. Governo e subversão
14 Cfr. P. Karibe Mendy, 1994, Colonialismo português em
África: a tradição de resistência na Guiné-Bi (...)
15 Philip J. Havik, 1995-1999, «Mundasson i Kambansa: espaço
social e movimentos políticos na Guiné-Bi (...)
14
A maioria dos «oposicionistas» portugueses havia sido
saneada da Guiné na sequência do fracasso da chamada «Revolução Triunfante» em
Bissau e Bolama como vertente guineense das revoltas de 1931 contra a «Ditadura
Militar». Mais ainda, com a imposição da administração portuguesa desde os anos
quarenta, a população adaptava-se progressivamente «às realidades duras do
sistema colonial» e não se notava qualquer manifestação protonacionalista nas
elites coloniais14. Por essa altura, com a expansão da actividade comercial e a
«penetração progressiva do litoral "animista" pelo Leste
"islamizado"»15, o crioulo expandia-se como língua franca e
formava-se uma sociedade civil rural. A partir de então, como comprova a
transferência da capital de Bolama para Bissau em Dezembro de 1941, pode
começar a identificar-se uma formação social bissau-guineense.
16 Ver, em resumo, Leopoldo Amado, «Da embriologia
nacionalista à guerra de libertação na Guiné-Bissau (...)
15
Segundo os depoimentos de Elisée Turpin e Rafael Barbosa,
figuras históricas do nacionalismo guineense, logo na segunda metade da década
de quarenta surgiram manifestações de contestação ao domínio colonial e a favor
da democratização (nem sequer se punha a questão da independência ou
«autodeterminação»), entre as quais a fundação, em 2 de Abril de 1947, de um
Partido Socialista da Guiné, que, porém, não conseguiu desenvolver qualquer
acção relevante16.
17 Cfr. Joaquim A. de Oliveira & Joaquim A. Areal, 1952,
«Crónica da Província», in BCGP, Vol. VII, n. (...)
18 Carta de Raimundo Serrão, gabinete do Governador, datada
de Bissau, 15 de Outubro de 1952, in Arqui (...)
16
Em Julho de 1952, a propósito do terceiro aniversário do seu
desembarque em Bissau e para demonstrar que este «rincão da África Portuguesa»
estava a atravessar «um surto de felicidade», realizou-se uma sessão de
homenagem ao Governador, concluindo o próprio Raimundo Serrão que tal
homenagem lhe dava «a impressão que não se encontram completamente extintas as
esperanças» depositadas na sua nomeação17. Obviamente, a linha política traçada
pelo ex-Ministro Teófilo Duarte fora afastada e a governação da Guiné tomara-se
problemática. Por carta, dirigida ao «Amigo e Senhor Ministro» Sarmento
Rodrigues, Raimundo Serrão desmente as queixas do Chefe de Repartição Militar
quanto «à existência de propaganda comunista entre os indígenas», até porque,
aquando do censo geral de 1950, houvera «um contacto grande entre as
autoridades e os indígenas e nada constou». Além disso, mais recentemente, a
propósito da entrada em vigor do imposto de capitação, os indígenas vieram
junto das autoridades «nas melhores disposições e até acatando de boa vontade a
nova ordem neste aspecto da modificação do sistema de cobrança do imposto
indígena», o que, portanto, levava a assegurar «a certeza que nada há»18.
19 Era esta, desde a reforma dos nomes geográficos ordenada
em 1948, a nova ortografia do acanhado «ca (...)
17
A comissão de Raimundo Serrão, de quatro anos, terminava em
Junho de 1953. Apesar de ter inaugurado importantes obras (entre elas, a
criação do Colégio-Liceu, a Ponte-cais de Bissau, a ponte «Sarmento Rodrigues»,
o aeródromo de Bissalanca, a Catedral, o Palácio do Governo e o alcatroamento
de várias ruas de Bissau e algumas estradas), nenhuma delas fora de sua
iniciativa e responsabilidade. O mandato não foi renovado e o Ministro Sarmento
Rodrigues entendeu enviar o Subsecretário de Estado, Raúl Ventura, percorrer a
Província e inaugurar a Ponte-cais localizada no Pigiguiti (segundo a
ortografia oficial)19.
20 Cfr. Joaquim A. de Oliveira & Joaquim A. Areal, 1953,
«Cróruca da Província — Visita de Sua Excelên (...)
18
Raúl Ventura foi recebido oficialmente, pelas autoridades da
África Ocidental Francesa e representante do consulado português, no aeroporto
de Dacar, em 15 de Maio de 1953. Desembarcou, no dia seguinte, no aeródromo de
Bissalanca, assistiu a um Te Deum na nova Catedral e foi percorrer longamente o
interior da Província. De regresso a Bissau, visitou o quartel da Amura, as
instalações da Sociedade Comercial Ultramarina, a missão do Sono, a Granja do
Pessubé — «na companhia dos Engenheiros Agrónomos Nobre da Veiga e Amí1car
Cabral, foi ela percorrida em detalhe» —, o Asilo de Bór e a enfermaria de
Cumura. Em 28 de Maio, realizou-se finalmente a inauguração festiva e demorada
da Ponte-Cais de Bissau20.
21 Cfr. Joaquim A. de Oliveira & Joaquim A. Areal, 1953,
«Crónica da Província — Posse do Encarregado (...)
19
Logo a 13 de Junho embarcava para Lisboa o Governador
Raimundo Serrão. Antes, empossara o novo Encarregado do Governo, o Inspector de
Saúde Dr. Fernando Pimentel que, ao discursar, descreveu o governo de Raimundo
Serrão, o qual — segundo concluiu —, não obstante «algumas arrelias e
dissabores», até representara «uma época de fulgurante grandeza»21.
22 Cfr. Gilberto Freyre, s.d., Aventura e Rotina — Sugestões
de uma viagem à procura das constantes po (...)
23 Cfr. Joaquim A. de Oliveira & Joaquim A. Areal, 1954,
«Crónica da Província», in BCGP, vol. IX, n.º (...)
20
Para novo Governador foi nomeado, de imediato, o
capitão-de-fragata Diogo José Leite Pereira de Mello e Alvim, então Governador
da Zambézia, onde, aliás, em Janeiro de 1952, em Quelimane («uma cidade
luso-tropical em começo»), recebera Gilberto Freyre no seu percurso por
Moçambique. Era-acrescenta Freyre — mais um «esclarecido oficial» da Marinha,
da escola de Sarmento Rodrigues, cedido à administração ultramarina22. Mello e
Alvim passara pela Guiné dezasseis anos antes e o Centro de Estudos da Guiné
Portuguesa (CEGP) mostrou-se particularmente agradado com a nomeação. No
discurso de posse, em 3 de Dezembro de 1953, o Ministro Sarmento Rodrigues
lembrou-lhe que todos os governantes ultramarinos deviam «manter em actividade
uma imaginação criadora», pois a governação não podia contentar-se «com a
conservação do passado» e que seria «para o futuro que têm de estar voltadas as
sua principais atenções»; realçou os recentes melhoramentos na Guiné e
incentivou à continuação do desenvolvimento agrícola, por constituir «a base da
economia da província»23.
24 Carta de Diogo Mello e Alvim, Governador da Guiné, a
Sarmento Rodrigues, Ministro do Ultramar, data (...)
21
O Governador chegou a Bissau em 7 de Janeiro de 1954, a
bordo do navio-motor «Alfredo da Silva», que atracou na nova ponte-cais, na
ocasião-segundo o cronista — «repleta, vendo-se desde as personagens mais em
evidência no nosso meio até à enorme multidão de indígenas». Em princípios de
Fevereiro, iniciou uma viagem pelo interior, começando por Bolama. Na sua
correspondência com o Ministro, fez, meses depois, um apanhado da situação: em
1954, a Guiné estava «muito diferente» daquela que Sarmento Rodrigues deixara
em 1948: agora, «[t]odos mandavam e ninguém se entendia. A pouco e pouco, sem
pressas, tenho chamado os comandos ao Governo e posso assegurar-lhe que,
presentemente, já voltou a haver mais um bocadinho de ordem em tudo; nas
despe[s]as, na disciplina e até, perdoe-me o desabafo, na justiça. À parte um
administrador Costa, um director do Colégio-Liceu [...], julgo que estão todos
satisfeitos. Acima de todos, porém, os indígenas, que vêem em mim o
continuador da sua obra»24.
25 A. Teixeira Da Mota, 1954, pp. 47-48.
26 Cfr. BCGP, vol. IX, n.º 34, Abril de 1954, pp. 207 e
segs. O referido «Boletim Informativo» foi cri (...)
22
Também o bem informado comandante Teixeira da Mota
enfatizava a «perfeita tranquilidade no que se refere às relações entre brancos
e pretos» reinante na Província, propiciada quer pelas leis vigentes quer pelo
«trato individual dos Portugueses, avessos a discriminações raciais»25.
Curiosamente o mesmo número do Boletim Cultural que noticiava a chegada de
Mello e Alvim publicava dois artigos de Amílcar Cabral, um «A propósito da
mecanização da agricultura na Guiné Portuguesa», e outro «Acerca da utilização
da terra na África Negra»; de facto, Amílcar Cabral fora, a 4 de Agosto de
1953, encarregado de «estudar, planear e executar» o Recenseamento Agrícola da
província e já editava um Boletim Informativo, apelando à «permanente
consciencialização» e ao «incessante conhecimento do ambiente»26.
27 Nuno de Sotto-Mayor Quaresma Mendes Ferrão, 1997, O
Pensamento Colonial de Sarmento Rodrigues enqua (...)
23
Ainda no mandato do Ministro Sarmento Rodrigues fora
alargada a competência da polícia política — a PIDE (Polícia Internacional e de
Defesa do Estado) — ao Ultramar, através da reorganização de 1954, promovida
pelo Decreto n.º 39 749, de 9 de Agosto. Ficava sob superintendência do
Ministro do Ultramar (e não do Ministro do Interior, como na Metrópole) não só
por uma questão de unificação administrativa, cara ao Ministro do Ultramar,
mas também «para precaver as províncias ultramarinas contra o aparecimento de
grupos de tendências independentistas e de concomintantes revoltas
anticolonialistas»27. A sua instalação ainda demorou algum tempo: por um lado,
o Decreto-Lei n.º 40 541, de 27 de Fevereiro de 1956, veio introduzir «alterações
no funcionamento dos quadros» da PIDE no Ultramar e, quanto à Guiné, previu um
subinspector de polícia, um agente de 1.º classe e dois agentes de 2.ª classe;
depois, a abertura da delegação ocorreu em 1957, mas a rede da PIDE só foi
completada na sequência da Portaria n.º 16 750, de 28 de Junho de 1958,
mediante a criação de 5 postos (com 12 subpostos) em S. Domingos, Catió,
Bafatá, Farim e Gabu, «todos dependentes da subdelegação da mesma» PIDE, com
sede em Bissau.
28 Quanto a este período, há arquivos por consultar. Quanto
ao «Arquivo da PIDE/DGS» e ao «Arquivo Ant (...)
24
Por isso, as primeiras notas sobre movimentações subversivas
em Bissau pertencem ainda à Polícia de Segurança Pública (PSP). Assim, uma
nota datada de 3/5/1955 registou as reuniões dirigidas por Amílcar Cabral com
mais de uma dúzia de amigos visando a constituição de uma associação desportiva
e recreativa, reserva da aos «filhos da Guiné», para a prática de futebol e «O
desenvolvimento de actividades nativistas, incluindo uma biblioteca». Obtidos
os fundos para as despesas dos «Estatutos» elaborados por Amílcar Cabral,
aprovados estes e assinada a respectiva «petição» por 11 subscritores, foi
escolhida a comissão que os apresentaria à autorização administrativa. Não
foram aprovados e Amílcar Cabral ficou com a fama de «estar feito com os
grumetes», enquanto a PSP registava que «o Eng.º Cabral e a sua mulher
comportaram-se de maneira a levantar suspeitas de actividades contra a nossa
presença nos territórios de África com exaltação de prioridade dos direitos
dos nativos». As notas da PSP não só identificavam os locais dos encontros e os
intervenientes, como chegaram mesmo a conter uma relação de guineenses
«anti-situacionistas»28.
29 Luís Fernando Dias Correia Da Cunha, 1968, «Alguns
Aspectos da Subversão na Província Portuguesa da (...)
30 Assim, Jean Mettas, 1984, La Guinée Portugaise au XX
siècle, Paris, Académie des Sciences d'Outre-M (...)
31 O. Ignátiev, 1984, Amílcar Cabral, Moscovo, Edições
Progresso, p. 81.
32 Sobre o episódio (que se tomou lendário), ver Luís
Cabral, 1984, Crónica da Libertação, Lisboa, Edi (...)
25
Várias fontes referem que, em 1955, terá sido criado, em
Bissau, um Movimento para a Independência Nacional da Guiné (MING), por um
pequeno grupo de «civilizados» (embora tudo aponte para Amílcar Cabral e seus
auxiliares na granja de Pessubé), influenciados pela evolução política nas
limítrofes colónias francesas do Senegal e da Guiné. Segundo as fontes de
informação das autoridades portuguesas, os responsáveis do MING tentavam
alargar a influência que vinham exercendo, estendendo «O seu esforço de
aliciamento às camadas médias da população mestiça e nativa — os
"trabalhadores intelectuais" — e, simultaneamente, visa[vam] o
despertar de uma consciência proletária em determinadas camadas menos
evoluídas, dos centros urbanos, procurando a adesão dos trabalhadores
braçais»29. Não há qualquer prova de actividade nacionalista deste grupo, que
se revelou «pouco consistente»30 e não terá sido mais que uma «escola
ilegal»31. Nesse mesmo ano, o Governador Mello e Alvim — que era, segundo Luís
Cabral, de trato inteligente, desenvolto e franco — convidou telefónica e
formalmente Amílcar Cabral para o informar que recebera «denúncias» sobre
reuniões subversivas em que Amílcar Cabral participara, a que tinha de dar
seguimento, e pôs termo às suas funções na «estação agrária» e à residência
permanente, embora autorizando-o a uma visita anual à família32.
33 Sobre a visita, Rodrigues Matias (coord.), 1956, Diário
da viagem presidencial às províncias ultram (...)
34 Leopoldo Amado, «Simbólica... », cit., in loc. cit.
26
Entre 2 de Maio e 14 de Maio de 1955, a Guiné recebeu a
visita do Presidente da República, Craveiro Lopes, acompanhado pelo Ministro do
Ultramar, Sarmento Rodrigues. Do extenso programa destacam-se, em Bissau, a
inauguração do aeroporto, da Escola Central das Missões Católicas, do
monumento a Teixeira Pinto, a visita ao CEGP e, no interior, as passagens por
Bolama, Fulacunda e Catió, Bafatá, Nova Lamego, Farim, Cacheu e Teixeira Pinto.
Porém, na documentação da viagem, não ficou qualquer referência a uma
«Representação», subscrita por vários «oposicionistas» e redigida por José
Ferreira de Lacerda, contendo uma relação de aspirações quanto ao futuro da
Guiné33. Em 1 de Outubro, reuniu o novo Conselho de Governo, constituído por
três vogais «natos», três vogais eleitos por sufrágio directo e por quatro
vogais escolhidos pelo Governador (respectivamente, representantes dos
indígenas, dos maiores contribuintes, dos corpos administrativos e da
Associação Comercial, Industrial e Agrícola). Mas, para a escolha dos vogais
eleitos, tinha sido apresentada uma «lista da oposição» (que não elegeu
ninguém), registando-se «a existência, mais ou menos paralela, de outro grupo
de nacionalistas que actuava sob a coordenação de Mário Lima Wanon»34.
35 António George Cristóvão de Sousa Frankun, 1956, «A
ameaça islâmica na Guiné portuguesa», Comunicaç (...)
27
No IV Congresso da União Nacional — convocado por Salazar,
para finais de Maio de 1956, com a deliberada intenção de a mobilizar para as
tarefas «políticas» de defesa do Ultramar — uma comunicação considerava que
sobre a Guiné impendia «a ameaça islâmica», pois, muito embora fulas, mandigas
e outros islamizados continuassem, de momento, a render «o preito da sua
amizade e lealdade, revelando-se respeitadores, nada havendo a recear deles»,
tal comportamento poderia alterar-se em caso de instigação «por qualquer
movimento vindo do exterior», tanto mais que eles mantinham intensas ligações
«com os seus confrades dos vizinhos territórios estrangeiros (onde a semente
subversiva começa a agitar os povos)»35. As autoridades portuguesas não iriam
descurar este aviso.
36 Henrique Pinto Rema, OFM, 1952, História das Missões
Católicas da Guiné, Braga, Editorial Francisca (...)
28
Porém, o ano de 1956 é politicamente assinalado na Guiné por
outras razões. Na tarde de 6 de Março, grande agitação social: uma greve dos
descarregadores africanos da «Casa Gouveia». Segundo o relato feito por
Henrique Pinto Rema, tudo começou por um recontro entre seis guardas da
polícia e um grupo de marítimos e estivadores amotinados e excitados, que
reivindicavam aumento de salário; como a polícia recebeu ordens para não
utilizar a força, «os desordeiros perceberam, agrediram o chefe e os guardas»;
chamados, então, reforços policiais, foram detidos cinco amotinados. A Polícia
ainda se terá sentido mais «humilhada», quando, «mal eram passadas cinco
horas», o Governador Mello e Alvim foi à esquadra libertar os detidos. Aliás,
sugere Pinto Rema, a agitação estava concertada e teria a ver com movimentações
visando a fundação de um partido político independentista, pois, a 7 de Março,
«os marinheiros das embarcações de Mário Lima, alegando igualmente aumentos de
salários, recusaram-se a sair para o mar» e, para mais, no dia seguinte, «os
marinheiros e manjacos da casa NOSOCO não quiseram receber os salários daquele
mês e não permitiram a saída de embarcações, da Casa Gouveia, do cais do Piguigiti
para o ilhéu do Rei com trabalhadores»36.
37 F. Mendes, 1956, «Crónica da Província» in BCGP, Vol XI,
n.º 42, pp. 134-135.
38 In Jaime Nogueira Pinto (org.), 1993, p. 198. Relata o
seu mandato «Doutor Silva Tavares, Governado (...)
29
Tempos depois, «por via aérea e por motivo de saúde», o
Governador Mello e Alvim partiu para Lisboa, tendo feito entrega do Governo ao
inspector administrativo, capitão Abel de Sousa Moutinho. Um dos últimos actos
oficiais foi o descerramento, na biblioteca do Museu, do retrato de Sarmento
Rodrigues como fundador do Centro de Estudos da Guiné Portuguesa (CEGP)37. Em
13 de Setembro de 1956, assumiu o Governo o Dr. Álvaro Silva Tavares —
cabo-verdiano de origem e anterior magistrado do Ministério Público e Judicial
na Guiné, Moçambique, Angola e Goa — que se propunha seguir a «linha inspirada
por Marcello Caetano, sob a égide de Salazar, e desenvolvida por Sarmento
Rodrigues»38.
30
Setembro ficará na história da pacata Bissau por também ter
desembarcado Amílcar Cabral, de passagem, para visitar a família e conversar
com alguns amigos sobre «assuntos importantes». A 1 de Outubro, reuniu o
Conselho de Governo. Em 22 de Outubro, na posse da nova Comissão Executiva do
CEGP, presidida por Avelino Teixeira da Mota, o representante da comissão
executiva cessante referiu que, quanto ao n.º 40 do Boletim Cultural da Guiné
Portuguesa (BCGP), relativo a Outubro de 1955, se aguardava «ainda que o
Engenheiro Amí1car Cabral nos envie de Angola, onde presentemente reside, um
trabalho relativo ao Censo Agrícola da Província da Guiné, tirado do seu
Relatório Oficial, que julgamos ser de interesse publicar».
39 Apud, «Notas e Informações — Centro de de Estudos», in
BCGP, Vol. XII, n.º 45, Janeiro 1957, pp. 12 (...)
31
Mas o relacionamento de Amílcar Cabral com a administração
portuguesa ia-se rompendo, este trabalho nunca foi enviado e Amílcar Cabral
será ignorado na detalhada «exposição de trabalhos e projectos» apresentada
por Teixeira da Mota39.
III. O Partido Africano da Independência (PAI), o Movimento
Anti-Colonialista (MAC) e o Movimento de Libertação da Guiné (MLG)
32
Segundo a versão consolidada, a 19 de Setembro de 1956,
domingo à tarde, intervindo num círculo de amigos convidados para o efeito,
Amílcar Cabral propôs a constituição de um partido político para alcançar a
independência da Guiné e Cabo Verde e defender a união entre os povos guineense
e cabo-verdiano, numa perspectiva geral de unidade africana. Seria o Partido
Africano da Independência (PAI).
40 Cfr. Elisée Turpin, «Depoimento», in
http://www.pajgc.org/DEPOIM~1.HTM e declarações de Abílio Duar (...)
33
A reunião durou cerca de uma hora, foram poucos os presentes
(a maioria de origem cabo-verdiana) e não há qualquer documento comprovativo.
Elisée Turpin afirma que teriam sido «aprovados os Estatutos do PAI,
elaborados por Amílcar», mas o testemunho de Turpin, habitualmente indicado
como um dos seis fundadores, está posto em causa40.
34
As precauções de segurança e discrição e a insistência nos
estudos e reuniões culturais tinham sido adquiridas por Amílcar Cabral no
trabalho clandestino e de consciencialização (recorda Cabral que, acabada «a
hora da brincadeira» nos encontros de amigos que promovera em Bissau, para se
passar a umas «pequenas conversas», alguns deles deixaram de aparecer por
entenderem — dada a «realidade da nossa terra» — que a criação do PAI era «uma
doidice»).
41 Existem múltiplas referências em textos de Amílcar Cabral
(quanto à citação, cfr. , «Os princípios (...)
35
Não há sequer consenso quanto ao número de «fundadores», nem
quanto ao alcance efectivo da reunião: para além da intenção de formar um
partido político, as principais medidas limitaram-se ao incentivo da preparação
teórica pela leitura (em grupo), a uma incipiente distribuição de tarefas e à
escolha de pseudónimos41.
36
Mas a fundação do PAIGC (sigla adoptada a partir de Outubro
de 1960) tem de ser vista como um processo amplo e com antecedentes, onde
intervieram variadas personalidades, e que só se concluirá pela afirmação
pública e organizacional do PAI/PAIGC no decurso de 1960. Esta reunião de 19 de
Setembro de 1956 e a intervenção de Amílcar Cabral terão sido — como decorre
dos testemunhos coetâneos, incluindo os do próprio — apenas o momento do
lançamento do PAIGC como ideia e organização nacionalista e, portanto, o seu
essencial «momento constituinte».
42 Jean Ziegler, 1983, Les Rebelles — Mouvements armés de
libération nationale du Tiers Monde, Paris, (...)
37
Na sua linguagem desenvolta e tendo presente o que veio a
ser a futura obra libertadora, a estratégia militar e a produção ideológica e
política do PAIGC, Jean Ziegler — depois de considerar que o original grupo
fundador correspondia a «um núcleo fraternal, unido por uma sensibilidade
idêntica, alimentado por uma memória comum» — avança que a reunião de 19 de
Setembro de 1956 teve um «carácter irrisório» (assemelhando-se a mera
«assembleia constitutiva» de mais um círculo político, humanista e
patriótico), cujos debates foram «medíocres», e que os fundadores do PAI, «pequeno-burgueses
mestiços ou negros, instalados no seu papel subalterno de auxiliares do
colonialismo, viviam a anos-luz das preocupações quotidianas, das angústias e
das humilhações sofridas pelas massas rurais»42.
43 Luís Cabral, 1984, pp. 49 e segs.
44 Cfr. Patrick Chabal, 1983, Amílcar Cabral —
Revolutiornary leadership and people's war, Cambridge, (...)
38
Aparentemente, este PAI guineense era «gémeo» do partido com
idêntica designação, criado na mesma altura no Senegal por vários
ex-estudantes em França, e inseria-se na vaga pan-africana que agitava a
África Negra. De qualquer modo, a acção inicial do PAI, na Guiné, não foi
significativa, limitando-se à tentativa de recrutar simpatizantes, embora
alcançasse, em Abril de 1957, o domínio da lista eleita para a direcção do
único sindicato existente, o corporativo Sindicato Nacional dos Empregados do
Comércio e Indústria, mas rapidamente desistiu dos propósitos sindicalistas43.
Remetido à clandestinidade numa «cidadezinha» colonial, a estrutura do PAI
continua, ainda hoje, nebulosa e enquanto Patrick Chabal, baseado em relatos
orais, adianta que o PAI «começou com um escasso número de membros, 20 a 30 em
Bissau e uns poucos mais noutras cidades», Chaliand acrescenta que, após o
aparecimento da PIDE, a organização do PAI acautelou-se mediante «células de
três a cinco membros, garantindo uma compartimentação rigorosa»44.
45 Maria Sofia Carrajola Pomba do Amaral Guerra, licendada
em Farmácia, pertenceu à Direcção dos Joven (...)
39
Em 1957, a PIDE instalou-se em Bissau e começou por
controlar directamente a acção de alguns «antifascistas», próximos do Partido
Comunista Português ou «desterrados políticos», com destaque para a Dr.ª Sofia
Pomba Guerra45.
46 In Arquivo Mário Soares — Documentos Mário de Andrade,
pasta 4337.005, Imagem 136. Ver, também, Jul (...)
40
Em Novembro, Amílcar Cabral e Viriato da Cruz convocaram a
recente «diáspora parisiense» (Mário Pinto de Andrade, Guilherme Espírito
Santo e Marcelino dos Santos) para uma Reunião de consulta e estudo para o
desenvolvimento da luta nas colónias portuguesas. Esta reunião a cinco durou
alguns dias e realizou-se no quarto de Marcelino dos Santos, na Praça da
Sorbonne, em Paris. Há sobre ela várias referências em obras de Mário de
Andrade e um texto dactilografado, não assinado e datado da «Europa 1957», que
enuncia a «Declaração de Princípios» e as «Resoluções» adoptadas, «por
unanimidade», na referida Reunião46.
47 Mário Pinto De Andrade, 1997, Uma entrevista dada a
Michel Laban, Lisboa, Edições João Sá da Costa, (...)
41
Os «Princípios» aprovados constam de 20 pontos — que
funcionam como uma espécie de «proposições». Parte-se das constatações de que
as províncias ultramarinas portuguesas de África viviam sob regime colonial
(n.º 1), de que os interesses vitais dos africanos impunham uma «luta
concreta», sagrada, vital e mediante a participação activa das massa populares
até à eliminação completa e incondicional do colonialismo (n.ºs 2 a 7).
Abordam-se, depois, algumas características específicas que condicionavam a
luta contra o colonialismo português, como sejam: a quase totalidade das
populações africanas não tem instrução e é analfabeta (n.º 8); a luta deve ser
bem preparada e organizada e o seu desenvolvimento principal há-de ser
necessariamente clandestino (n.ºs 9 a 12). Tomava-se indispensável uma
organização, de carácter patriótico, que trouxesse ânimo, confiança e
convicção (n.ºs 13 a 16). Além do «princípio da luta», era indispensável o
«princípio da unidade» na libertação do jugo colonial e imperialista (n.ºs 17 a
19). Finalmente, a Reunião reconhecia a «Concepção, digamos, marxizante ou
marxista ortodoxa da nossa formação política [...] aliás, de uma forma que se
verificou em seguida estar errada»47, ou seja, a conclusão de que a classe operária
constituía a classe social mais revolucionária e que caberia «ao proletariado o
papel de mobilizar e organizar as massas, de dirigir a luta contra o
colonialismo» (n.º 20).
42
Seguem-se as cinco «Resoluções» tomadas pela Reunião:
43
a)- favorecer a criação e consolidação de organizações
patrióticas;
44
b)- criar, de imediato, na Europa, o movimento de libertação
nacional das colónias portuguesas, com o objectivo de contribuir para a
liquidação do colonialismo português;
45
c)- tentar participar (o que, note-se, não foi conseguido)
na Conferência Afro Asiática do Cairo, em Dezembro de 1957;
46
d)- designar um Comité provisório de direcção colectiva, ao
qual incumbia «começar imediatamente a execução das tarefas inerentes às soluções
da presente Declaração».
48 Edmundo Rocha, 1977, «A Casa dos Estudantes do Império
nos anos de fogo», in AAVV. Mensagem – Númer (...)
49 Entrevista de Tomás Medeiros, apud Dalila Cabrita MATEUS,
1999, A Luta pela Independência — A Forma (...)
47
O mais importante resultado desta Reunião foi, pois, o
lançamento do designado Movimento Anti-Colonialista para a Libertação das
Colónias Portuguesas, que ficou mais conhecido por Movimento Anti-Colonialista
(MAC). A sua criação foi impulsionada por Viriato da Cruz, aquando da sua
passagem por Lisboa (onde residiu em casa de Amílcar Cabral) com destino a
Paris e o MAC vai agrupar os estudantes africanos da Casa dos Estudantes do
Império (CEI), servindo para associar os elementos da chamada «geração de Cabral»
(que constituíram o primeiro Directório do MAC, em Lisboa, formado por Amílcar
Cabral, Agostinho Neto, Eduardo Macedo dos Santos, Lúcio Lara e Noémia de Sousa
e que Edmundo Rocha identifica como os «Mais Velhos») com o «numeroso grupo de
estudantes da "Nava Vaga" mais ligados às actividades na CEI e sem
qualquer vínculo com as organizações da Oposição portuguesa»48. Apesar de ser
«um grupo muito restrito e fechado»49, o MAC era composto por estudantes de
todas as colónias e mantinha algumas «relações orgânicas» com a «Componente
externa», ou seja, os chamados «Grupo de Paris» e «Grupo da Alemanha»
(integrados por exilados políticos), e com os núcleos nacionalistas de Bissau
e Luanda.
50 Filinto de Barros, 1997, Kikia Matcho, Bissau, Centro
Cultural Português, p. 18.
51 Hélio Felgas, 1967, Guerra na Guiné, Lisboa, Speme, p.
45, e, 1966, Os movimentos terroristas de An (...)
48
Mas em Bissau havia mais contestação política e a expansão
da cidade levara a que muitos «civilizados» passassem a residir no antigo
bairro indígena do «Tchon di Papel». Ora, precisamente no bairro de Varela —
perto do Cobom di Bandé, que correspondeu ao «berço da Luta, o local que
forneceu a nata dos dirigentes»50 50 do movimento nacionalista —, em Agosto de
1958, cerca de uma dezena de «quadros», quase exclusivamente «civilizados»
guineenses de origem (estatuto que os afastava da conotação cabo-verdiana),
decidem formar um Movimento de Libertação da Guiné (MLG). Era um movimento
nacionalista (com várias derivações posteriores) que, por um lado, se pretendia
continuador da republicana «Liga Guineense» e, por outro, defendia que a Guiné
se deveria tomar um Estado Federado da República Portuguesa, dotado de uma
organização político-administrativa semelhante à dos Estados brasileiros (uma
das constantes propostas de José Ferreira de Lacerda, o «patriarca» deste MLG).
Segundo Hélio Felgas, a actividade inicial do MLG e «durante muito tempo»
reduziu-se «à difusão de panfletos, comunicados e manifestos»51.
IV. Cautelas do poder português
52 Cfr. Joaquim Areal, «Crónica da Província», in BCGP, n.º
50, p. 220/222.
49
Entretanto, a presença portguesa parecia firme e o futuro
promissor. Em Fevereiro de 1957, criticada na ONU a recusa de reconhecer para
as «províncias ultramarinas» o estatuto dos «territórios não autónomos», as
autoridades guineenses promoveram manifestações de repúdio a tais críticas e
de solidariedade com a política nacional. A 3 de Novembro, realizaram-se
eleições legislativas de que resultou, sem surpresa ou contestação, a
designação do candidato único a deputado pelo círculo da Guiné, comandante
Avelino Teixeira da Mota. Mas o ano não acabou sem uma revelação: o Ministro
do Ultramar, Raúl Ventura, deslocou-se a Bissau, informando o Conselho de
Governo da eventual existência de petróleo e confirmando a próxima celebração
de contratos de pesquisa e exploração com a Esso Exploration Guiné Inc., de que
apresentou os traços gerais52.
53 Conforme descrição de Joaquim Areal, «Crónica da
Província», in BCGP, n.º 51, pp. 376 e segs.
50
Em Abril de 1958, foi comemorado, como habitualmente, o
aniversário da entrada de Salazar para o Governo e, a propósito das
comemorações do «28 de Maio», efectuaram-se várias inaugurações, entre as quais
a ponte «General Craveiro Lopes» no Saltinho. Em Junho, realizaram-se eleições
presidenciais — num ambiente de alguma tensão, pois excitaram-se «os ânimos de
alguns», indo até ao «delírio da paixão política» —,embora a campanha do
candidato da União Nacional se tenha limitado a duas sessões de propaganda,
porque «dela não necessitava». Os resultados proclamados pelo presidente da
mesa eleitoral e dirigente do partido único «União Nacional», António Carreira,
mas contestados pela «Oposição», foram os seguintes: Américo Thomaz, 1 624
votos; Humberto Delgado, 430 votos53.
54 Relatório enviado a Marcello Caetano, Ministro da
Presidência, em 8 de Novembro de 1956, citado por (...)
51
Por essa altura, sem alarde e para trabalhos de campo,
chegou a «Missão de Estudo dos Movimentos Associativos em África», chefiada por
Silva Cunha e integrada pelo 1.º assistente José Maria Gaspar e pelo 2.º
assistente Fernão Vicente. Fora criada por portaria de Fevereiro de 1957, no
âmbito do «Centro de Estudos Políticos e Sociais» (dirigido por Adriano
Moreira), organismo dependente da Junta de Investigações do Ultramar e adstrito
ao Instituto Superior de Estudos Ultramarinos. Segundo o (prévio) relatório
confidencial elaborado por Jorge Dias, o caso da Guiné não era «preocupante»,
mas haveria que tomar «medidas especiais», dada a «reduzida influência da
cultura e da língua portuguesa junto dos indígenas e a resistência à penetração
da religião católica»54. A referida «Missão» fizera a primeira campanha, em
1956 e 1957, em Angola, e adoptaria modelo idêntico nesta campanha da Guiné,
cuja urgência derivava da situação política nas colónias francesas limítrofes,
«Com vista à referenciação de eventuais movimentos de reacção que pudessem
servir de canal de penetração no nosso território de ideias semelhantes às que
agitam as populações» dessas colónias. A acção da «Missão» abrangeu todo o
território, tendo examinado os arquivos dos Serviços da Administração Civil, da
PIDE, da PSP, do Tribunal de Comarca e das administrações de circunscrição e
concelho e interrogado muita gente, desde autoridades a cidadãos e indígenas. O
Relatório consta de cerca de 100 páginas e as «Conclusões» mais relevantes
são:
52
a) perante a conjuntura social interna, não se afigurava um
perigo imediato de «efeitos de reacção anti-portuguesa», mas ele podia «surgir,
de um momento, para o outro, em resultados de influências externas», sendo «de
excepcional interesse o que se passa na nova República da Guiné»;
53
b) havia o risco de as associações mutualistas tradicionais
serem aproveitadas para acção política, pelo que era de acompanhar a evolução
«dos chamados clubs, pois poderão ser aproveitados para veículos de penetração
de movimentos subversivos que sob eles se acobertam»;
54
c) devia ser revista a política cultural e de ensino, pois a
crescente islamização das populações facilitava a expansão de ideias
anti-portuguesas;
55 J. M. da Silva Cunha. 1959, Missão de Estudo dos
movimentos associativos em África. Relatório da Ca (...)
55
d) apesar de reinar a paz, havia que «estar atento», pois os
fenómenos sociais evoluem rapidamente e os «indígenas sabem tudo o que se
passa à roda. Sabem que no chão francês os brancos estão a ir embora e que os
pretos agora é que mandam»55.
56 Centro de Estudos Politicos e Sociais, Conselho
Orientador, Acta n.º 9 (borrão), de 5/6/1959 (dacti (...)
56
Nas reuniões de Junho e Julho de 1959 do «Conselho
Orientador» do já referido Centro de Estudos Políticos e Sociais foi discutido
e aprovado, como fora determinado por despacho do Ministro do Ultramar, um
«Relatório» a propor «medidas imediatas para resolver os problemas suscitados
por aqueles movimentos», que se baseou nos relatórios da «Missão» e num
documento elaborado por Silva Cunha. Tal relatório não se limitou «ao escopo
restrito dos movimentos associativos», começando até pelos «problemas
políticos de fundo». Os aspectos específicos da Guiné não são autonomizados,
mas, na reunião de 5 de Julho, o Dr. Henrique Martins de Carvalho mostrou-se
«bastante impressionado» com o que se passava na Guiné «pois essa província
está dominada pela CUF e aí existe um sentimento de revolta contra essa
companhia», em particular contra os seus «dirigentes locais»56.
57 Cfr. Joaquim Areal, «Crónica da Província», in BCGP, n.º
53, pp. 125 e segs..
57
Na mesma altura, o governador Álvaro Silva Tavares foi
empossado como Secretário de Estado da Administração Ultramarina, a 14 de Julho
de 1958. Como novo Governador da Guiné o Conselho de Ministros, de 7 de Outubro
de 1958, nomeou o capitão-tenente António Augusto Peixoto Correia que, entre
1945 e 1949, fora, sucessivamente, chefe de gabinete do Governador Sarmento
Rodrigues, presidente da Câmara Municipal de Bissau, presidente do Conselho dos
Desportos, capitão dos Portos, vice-presidente da Comissão Orientadora da
Radiodifusão e membro residente do CEGP. Chegou a Bissau em 29 de Dezembro. No
discurso de posse como Governador da Guiné, Peixoto Correia, depois de se
considerar honrado por «prosseguir a obra notável de fomento e valorização»
iniciada por Sarmento Rodrigues, invocou o «especial cuidado» a dispensar à
«população nativa», acelerando «a sua integração total na nossa comunidade» e
reforçando «os laços de fidelidade à Pátria, evidencia dos pelos indígenas,
elemento primordial a opor a qualquer acção dissolvente que porventura
surja»57.
58 Armando Castro, 1980, O Sistema Colonial Português em
África (meados do século XX), Lisboa, Caminho (...)
59 Idem, op. cit., pp. 15-16.
58
Segundo Armando Castro que, em meados de 1958, visitara a
Guiné preparando um estudo destinado ao Partido Comunista Português,
desenvolvia-se, entre os guinéus, uma «resistência surda» à exploração e
algumas «lutas de massas», como a de Maio de 1956; crescia a influência
islâmica e a luta elevava-se «mesmo ao plano político, como é demonstrado pela
apresentação de uma lista de candidatos ao Conselho de Governo». Por seu lado,
apesar da vaga anticolonialista, «a política das autoridades portuguesas não
sofreu qualquer transformação» e até tinha intensificado «a vigilância e a
repressão policial», como comprovava a recente instalação da PIDE58. Ou seja:
não há notícia de qualquer organização política anticolonial e a situação era
de «aparente calma», num quadro geral de relativo atraso do «despertar da
consciência nacional» e de vasta ofensiva ideológica e propagandística do
regime vigente59.
V. O massacre do Pindjiguiti
60 Idem, «Crónica...», cit. loc cit., pp. 139-140.
61 Segundo o relatório do Conselho Superior da Defesa
Nacional, de 29 de Agosto de 1959, citado por An (...)
62 Cfr. Joaquim Areal, «Crónica da Provmcia» , in BCGP, n.º
56, p. 737.
63 Cfr. a entrevista do marechal Costa Gomes in Drumond
Jaime & Hélder Barber (org.), 1999, Angola: De (...)
59
A 11 de Dezembro de 1958, aterrara uma delegação militar,
chefiada pelo Subsecretário de Estado do Exército, Francisco da Costa Gomes,
que percorreu várias localidades numa missão «de carácter militar, mas
relacionada com diversos aspectos económicos locais, e com a localização de
aquartelamentos militares no interior da Província»60. Tratava-se de aplicar na
Guiné a alteração da organização militar do Ultramar, decidida no início de
1958, reorganizando o Exército e a defesa em vista da eventual e provável
«guerra subversiva», e dando toda a prioridade à Guiné pois os órgãos
superiores da Defesa Nacional tinham concluído que poderiam «ter de fazer face
a uma agressão de forças organizadas pela nova república» da Guiné-Conakry61.
Costa Gomes voltou a passar por Bissau, em princípios de Julho, «a fim de
estudar assuntos relacionados com actividades do Comando Militar»62 e não
deixou de prevenir o Governador Peixoto Correia sobre as informações de que
«estava em mente, em preparação, uma revolta dos homens que faziam o serviço do
porto, cargas e descargas, que eram manjacos» e que o Governador deveria
satisfazer as «reivindicações», pois o tratamento dos trabalhadores era
desumano e havia que tomar providências63.
60
E, de facto, em Julho de 1959, os marinheiros de Bissau
desencadearam novo movimento grevista. A organização da greve, alargada a
contra-mestres, marinheiros e cozinheiros, pertenceu aos «capitães» dos barcos
e partiu de uma reivindicação de aumentos de salários (invocando a dureza das
condições de trabalho e o custo da alimentação — arroz, azeite de palma e
«casseque», ou seja, peixe-seco), recusado esse ano pela empresa «Casa
Gouveia». As embarcações das nove firmas armadoras eram «lanchas», «motoras» e
«barreiros» ou «botes» a remos e a grande maioria dos marítimos, de etnia
manjaca, tinha de fazer também o trabalho de estiva. Os salários eram
concertados anualmente pelas casas comerciais que dispunham de lanchas para os
serviços de cabotagem.
64 Depoimento de Sido Balde, 50 anos, guarda da Polida, in
Nô Pintcha, n.º 56, de 2/8/1975, p. 9.
65 Depoimento deSalio Camará, 56 anos, cabo da Polida, in Nô
Pintcha, n.º 56, de 2/8/1975, p. 9.
61
A preparação das reivindicações começara nos encontros, sob
os coqueiros do cais, iniciados a 25 de Julho, que estabeleceram o abandono do
trabalho com devolução dos barcos, caso não fosse concedido um imediato
aumento dos vencimentos. O fracasso da reunião, na manhã de 3 de Agosto, entre
António Carreira (à data, gerente da «Casa Gouveia») e os representantes dos
marinheiros despoletou a crise. Os «Capitães» convocaram uma concentração para
as três horas da tarde no cais do porto, a fim de devolverem os barcos e
recusarem terminantemente retomar o trabalho enquanto os salários não fossem
aumentados. Interveio então o patrão-mor da Capitania que convocou os
marinheiros para o edifício das Oficinas Gerais, mas, como não os fez mudar de
posição, chamou novamente António Carreira. Este, às três horas, «veio à
esquadra buscar os chefes Lima, Rocha e Conceição»64. Cerca das quatro da
tarde, o chefe Conceição «dirigiu-se ao porto e foi dar ordens aos marinheiros
para continuarem a trabalhar e como eles nem sequer se mexeram dali, começou a
empurrá-los e até chegou a dar uma bofetada a um deles»65; os marítimos
ripostaram violentamente, brandindo os remos, paus, barras de ferro e arpões
com que se haviam armado. Ouviram se os primeiros tiros (para o ar), houve
luta pelo domínio das armas e várias agressões, começando a correr sangue.
Imediatamente foram chamados reforços policiais para a zona do cais, que
assumiram posição de combate (diz o testemunho de um dos «guardas» que «o
tenente Simão foi logo à esquadra onde organizou o pessoal para o Pindjiguiti
porque estava a haver guerra com os marinheiros»). Generalizou-se a
insurreição, foi dada ordem de «fogo!» pelo comandante militar,
tenente-coronel Filipe Rodrigues (para outros, a ordem veio do tenente Simão).
Foram cinco minutos de tiroteio e lançamento de granadas, com perseguição aos
grevistas que tentavam fugir na direcção do cais e abrir os portões, entretanto
encerrados (para impedir o acesso às instalações da «Casa Gouveia»).
66 Henrique Pinto Rema, 1966, p. 856 (com base nos números
de 6, 20 e 21 de Agosto de O Arauto, diário (...)
67 Cfr. «[Relatório] Confidencial do Comandante da Defesa
Maritima, cap. ten. Raul de Sousa Machado, a (...)
62
A polícia, prossegue outro relato (elaborado a partir dos
dados da «Missão católica»), «perde o autodomínio e começa a atirar a matar em
força, sem quaisquer considerações. No fim, há uns 13 a 15 mortos espalhados no
cais do Pindjiguiti; mais cadáveres de marítimos e estivadores são arrastados
pelas águas do Geba, não se sabe quantos; alguns moribundos ou gravemente
feridos vão falecer no hospital [...]. Muitos dos amotinados conseguiram
escapar para o Senegal e República da Guiné-Conakry nos próprios barcos em que
trabalhavam»66. Segundo o relato do «Comando da Defesa Marítima da Guiné»
(CDMG), mesmo depois das primeiras descargas e mortes, a repressão continuou
«atirando polícias e militares sobre manifestantes fugitivos, uns dentro de
água, acocorados outros atrás de embarcações, outros ainda correndo pelo
lodo»; então, o comandante militar, para «impedir a fuga destes últimos» fez
«fogo comprido, à maneira de "barragem" para que eles não a pudessem
atravessar e retrocedessem» e o substituto do Capitão dos Portos «mandou sair
uma lancha-motor da capitania para que impedisse a fuga de algumas canoas», mas
sem êxito67.
68 Assim, «[Relatório] Confidencial do Comandante...», cit.,
fls. 2. apud loc. cit.
69 Cfr. «Documentos Inéditos do 3 de Agosto de1959 —
Confidencial n.º 27, endereçada ao «[...] Inspect (...)
70 Assim, «[Relatório] Confidencial do Comandante...», cit.,
fls. 2, apud loc. cit., Segundo Mário Ant (...)
63
Transportados cadáveres e feridos, a repressão foi violenta,
com prisões e interrogatórios no Quartel-General. A área do cais esteve
isolada e sujeita a vigilância policial. A PIDE desentendeu-se com a
administração e procurou descortinar «cabecilhas políticos» por detrás dos
analfabetos marítimos indígenas (e diligenciou para o envio dos presos com
destino ao Tarrafal, em Cabo Verde, ordem essa que acabaria por ser
revogada68). Foi instaurado um inquérito administrativo (a cargo do Inspector
Manuel Bento Gonçalves Ferreira) aos ditos «incidentes de 3 de Agosto» — que,
em conclusão, apurou nove mortos e catorze feridos (em internamento
hospitalar), a que acresciam «alguns presos à ordem da PIDE, desconhecendo, no
entanto, o seu número»69. Para o citado relatório do CMDG o balanço do
movimento registava: 1 chefe de polícia ferido; 9 marítimos manifestantes
mortos; 15 marítimos manifestantes feridos de certa gravidade e hospitalizados;
23 marítimos presos70.
71 Cfr. «Documentos...», cit., apud loc. cit., p. 10. Ocante
Benunte seria militante do PAI e a sua bi (...)
64
Na manhã seguinte, terça-feira, 4 de Agosto, o Administrador
do concelho de Bissau, José Eduardo Silva Marques, contactou um dos capitães, o
mestre Ocante Benunte, que lhe apresentou as cinco condições dos grevistas para
retomarem o trabalho71: aumento dos salários; afastamento de António Carreira,
por, além das suas responsabilidades pelas mortes nos incidentes do dia
anterior, ser useiro em insultos e descontos arbitrários nos vencimentos, e,
ainda, por não ter cumprido a ordem de aumento de salários que a CUF, de Lisboa,
lhe transmitira oportunamente; afastamento do cais do patrão-mor da Capitania,
pelo uso contínuo de frases insultuosas; afastamento do chamado «patrão-mor da
Ultramarina»; libertação dos marítimos presos.
65
As negociações couberam ao citado Comando da Defesa Marítima
da Guiné (CDMG) respeitando as seguintes directivas fixadas pelo Governador
Peixoto Correia:
«1º — Que a questão dos salários só poderia tratar-se de
forma disciplinada, por intermédio da Capitania, e a intervenção das casas
armadoras.
2°— Que a libertação dos presos não se faria de maneira
alguma sem que fossem apuradas responsabilidades; então castigar-se-iam os
culpados e pôr-se-iam em liberdade os que não fossem responsáveis.
72 «[Relatório] Confidencial do Comandante...», cit., fls. 3,
apud loc. cit..
3°— Que nenhuma das diligências se iniciaria sem que
retomassem o trabalho»72.
73 Assim, «[Relatório] Confidencial do Comandante...», cit.,
fls. 3 e 4, apud loc. cit..
66
As conversações terão sido, por um lado, facilitadas «com a
presença e a ajuda muito compreensiva» do régulo (manjaco) de Cantchungo,
Baticã Ferreira, mas, por outro lado, «tornaram-se delicadas pelo aspecto de
comício em que por vezes decorriam». As autoridades procuravam, sobretudo,
«que os mesmos homens voltassem ao trabalho por não haver a mínima
possibilidade da sua substituição imediata, nem mesmo dentro de certo tempo, e
não podia de forma alguma atender-se às suas reivindicações como sintoma de
fraqueza ou submissão». Ora, as negociações, iniciadas na sexta-feira, 7 de
Agosto, continuaram no sábado, mas, no domingo «a propaganda da rádio Conakry,
referindo-se aos acontecimentos e imprimindo-lhes carácter político,
prejudicou ligeiramente o [seu] andamento». Então, na terça-feira seguinte, 11
de Agosto, considerando que «havia já muitos adeptos de retomarem o trabalho»,
as autoridades apresentaram um ultimato, pois que «se o assunto não fosse
resolvido imediatamente o caso seria entregue a outras entidades que o
resolveriam pela força; o ultimato deve ter quebrado as últimas resistências e
nesse dia mesmo começou a apresentar-se em massa todo o pessoal». Assim sendo,
apenas houve que «1azer novas matrículas, acertar tripulações [...],
conseguindo-se pôr em movimento, ordeira e disciplinadamente, 32 lanchas. No
dia seguinte, quarta-feira, as restantes embarcações entraram todas em
funcionamento, podendo considerar-se o caso resolvido no que tinha de grave, no
momento»73.
74 Mário Dias, «Guiné 63/74 — DXXXV: Pidjiguiti, 3 de Agosto
de 1959: eu estive lá», in http://bloguef (...)
67
Recentemente surgiu um depoimento importante, da autoria de
Mário Dias, mesmo que o seu testemunho presencial se limite à parte final dos
acontecimentos74.
68
Conta que, no regresso de uma guarda de honra prestada no
aeroporto, a coluna em que se integrava foi desviada para o cais, onde viu uma
«considerável multidão», fecha dos os portões do Pindjiguiti e cerca de uma
dezena de seguranças da PSP; já então «tinham terminado os tiros e
encontravam-se apenas a conter a multidão e a evitar que os marinheiros e
trabalhadores do cais de lá saíssem em direcção à Casa Gouveia». A missão da
coluna de que Mário Dias fazia parte visava «cercar os terrenos anexos»,
impedindo qualquer passagem; aí se mantiveram «aproximadamente 30 minutos, até
os ânimos se acalmarem (era o que se pretendia)». Depois, Mário Dias retira
significativas conclusões «destes tristes acontecimentos»:
69
a) a ocorrência «foi inteiramente da responsabilidade dos
marinheiros e trabalhadores do cais pertencentes à Casa Gouveia, por motivos
puramente laborais», enquanto o então chamado PAI «não esteve por detrás da
ocorrência»;
70
b) não se tratou de uma mera greve, pois «rapidamente se
transformou numa revolta violenta»;
71
c) apesar dos 16 mortos confirmados, parece-lhe «um pouco exagerado»
qualificar a ocorrência de «massacre», pois este termo refere-se a «chacina
indiscriminada, a uma carnificina injustificada».
75 Leopoldo Amado, «Simbologia...», dt., in loc. cit.
76 Cfr. «Rafael Barbosa, mito do nacionalismo africano, ao
Público», in Público, de 6/12/1999, p. 19. (...)
72
Este texto originou vários comentários, incluindo uma
abrangente análise de Leopoldo Amado. Também ele repete que o PAI «não teve,
pelo menos directamente, uma acção ou influência decisivas nas acções que
viriam a desembocar em Pindjiguiti», ao contrário do MLG, pois vários
«activistas» deste último «tinham-se há muito empenhado em acções de discreta
mobilização e consciencialização política dos trabalhadores portuários em geral
e dos marinheiros e estivadores do cais de Pindjiguiti em particular».
Considerando a envolvência política dos acontecimentos, Leopoldo Amado avança
que «a reivindicação a posteriori da paternidade de Pindjiguiti por parte do
PAI(GC) só se pode compreender na medida em que o MLG como o PAIGC partilhavam
indistintamente o mesmo espaço político», havendo mesmo vários casos de dupla
filiação ou simpatia75. De facto, numa entrevista que concedeu em 1991, Rafael
Barbosa (na época «Zain Lopes», membro do MLG) reconheceu ter sido «um dos
responsáveis da questão do Pindjiguiti», pois controlara António Nola que fora
«quem organizou a greve»76.
77 Alexander Keese, 2003, «"Proteger os pretos".
Havia uma mentalidade reformista na administração por (...)
73
O investigador alemão, da Universidade de Friburgo,
Alexander Keese teve oportunidade de consultar documentação do Ministério da
Defesa Nacional e do conselheiro diplomático francês em Dacar, donde concluiu
que o massacre de Pindjiguiti era «vivamente criticado, tanto pelos administradores
locais, como pelos responsáveis das forças armadas»77.
74
Os acontecimentos tiveram repercussão internacional, através
da difusão de notícias, a partir de Bissau. Serão aproveitados pelos
movimentos de libertação nacional das colónias portuguesas, então em fase de
«explosão organizacional». Mas a acção decisiva iria ser empreendida por
Amílcar Cabral.
78 «Carta de Amílcar Cabral a Ruth Lara», apud Lúcio Lara,
1999, Documentos e Comentários para a Histó (...)
79 «Relatório de Amílcar Cabral» apud Lúcio Lara, 1999, pp.
153-155.
80 «Carta do MAC à Conferência Pan-Africana», apud Lúcio
Lara, 1999, pp. 141-142.
75
Logo a 7 de Agosto, em carta a Ruth Lara, escrita em Kano
(Nigéria), Amílcar Cabral comunicava-lhe andar armado em «caixeiro-viajante»,
tencionando ir «ver a terra» e «regressar a Lisboa em Setembro», e informava-a,
de modo telegráfico, que na Guiné houvera «há dias 7 mortos e 5 feridos»78.
Envia, então, um relatório aos seus «[b]ons amigos», referindo-se à «etapa nova
e decisiva» que impunha o regresso a África, «onde a nossa ausência deixa uma
lacuna prejudicial à luta», e que continuava «a tentar cumprir o programa» que
traçara (ou seja, a implantação de um decidido movimento anticolonialista,
numa «marcha» que «não pode parar»), reafirmando ir visitar Bissau e «tentar ir
a Conakry»79. Por seu lado, Lúcio Lara encarregou-se de denunciar
internacionalmente os acontecimentos da Guiné, que «o Governo português,
receando a opinião internacional, esconde», nos quais houvera «muitos mortos e
feridos (o jornal francês Le Monde, menciona 12 mortos)»80.
81 «Carta de Amílcar Cabral» apud Lúcio Lara, 1999, p.
161-162.
76
Em seguida, por carta de 24 de Setembro, dirigida aos seus
«[c]aros amigos» (no caso, endereçada a Lúcio Lara), Amílcar Cabral resume a
sua ida a Bissau. Por um lado, encontrara provas da «vontade espontânea» e do
«desejo consciente» de lutar e, perante o aparecimento de outras organizações
nacionalistas, deveria ser «objectivo fundamental do programa traçado,
conseguir uma união sólida, a formação de uma só frente para lutar». Por outro
lado, quanto à «chacina feita pela polícia e civis portugueses», afinal o
balanço era: «24 mortos e 35 feridos, alguns muito graves. Chegaram mesmo a
matar alguns africanos dentro da água [...]»; tratou-se de crime «do mais
hediondo», que teria de ser vingado, mas os acontecimentos eram também «uma
lição e importa tirar daí as maiores vantagens para a luta»81.
VI. O PAIGC, movimento de luta de libertação nacional
82 Assim, Julião Soares Sousa, 2003, p. 344.
77
Com efeito, durante a sua estada de uma semana em Bissau,
Amílcar Cabral realizara «a mais decisiva reunião» da história do PAIGC.
Aliás, há mesmo quem, pura e simplesmente, considere ter sido «então que foi
fundado o PAI, mais tarde PAIGC (Partido Africano da Independência da Guiné e
Cabo Verde) e não em 1956 como se tem insistentemente defendido no discurso
oficial»82. Parece-nos uma afirmação precipitada mas, em qual quer caso, foi
na sequência desta reunião de 19 de Setembro de 1959 que o movimento
nacionalista adoptou várias medidas que se revelarão estratégicas:
78
a) evitar manifestações urbanas e deslocar a acção para o
campo, mobilizando e organizando os camponeses;
79
b) confirmada a natureza e violência do colonialismo
português, preparar-se para o previsível recurso à luta armada;
80
c) transferir parte da direcção para o exterior, indo
Amílcar Cabral instalar-se na República da Guiné (Conakry);
81
d) acordo entre Amílcar Cabral («Abel Djassi») e Rafael
Barbosa («Zain Lopes») quanto à «Carta da Frente de Libertação da Guiné e Cabo
Verde» (FLGCV), ou seja, a «frente orgânica de unidade», que permitiria a
integração dos «principais responsáveis» do MLG nos «organismos superiores do
PAI».
83 Este «Relatório da reunião de 19 de Setembro de 1959» foi
dado a conhecer por Basil Davidson, 1969, (...)
84 Está publicada apud Mário de Andrade, 1980, Amilcar
Cabral, Paris, Maspero, pp. 90-91.
85 O original em francês (e a tradução portuguesa)
encontram-se apud Amílcar Cabral — Sou um simples a (...)
82
Três documentos testemunham esta importante reunião e
permitem algumas ilações quanto à génese da luta de libertação. O primeiro é
um «relatório confidencial» — obviamente da autoria de Amílcar Cabral e
redigido, segundo acrescenta Basil Davidson, «imediatamente depois» da reunião
«alargada» de 19 de Setembro de 1959 — que, além das respectivas conclusões
(sumariadas supra), invoca a «experiência de três anos de luta», embora não
cite no texto a sigla PAI, mas sim «O Partido», sem mais83. O segundo é a referida
«Carta da Frente de Libertação da Guiné e Cabo Verde», expressamente datada de
«Bissau, 19 de Setembro de 1959» — apesar de a fixação do seu texto ser, por
certo, posterior, até porque se encontra assinada apenas por Abel Djassi
(Amílcar Cabral) — e na qual se invoca o PAI enquanto «organização política
autónoma criada por guineenses e cabo-verdianos na Guiné dita Portuguesa»84. O
terceiro, é uma expressiva carta enviada de Conakry, em 16 de Junho de 1960,
por A. Djassi aos seus camaradas do PAI e da FLGC, onde Amílcar Cabral se
refere ao «encontro do ano passado», ou seja, a «Célebre reunião com Zain»,
menciona a actividade política que, entre tanto, desenvolveu e, no último
parágrafo, recorda ser ele o «irmão, o vosso camarada de sempre, aquele que
criou o PAI, o nosso Partido autónomo», sublinhando que é «aquele que ama a
agricultura», o mesmo «que fez uma reunião com o Zain, o ano passado para criar
a Frente de Libertação» e, antes de concluir com incitamentos e pedidos de
notícias, insiste na sua qualidade de «Secretário-Geral do nosso PAI»85.
86 Sobre o Manifesto do MAC e a Conferência Pan-Africana de
Tunes, ver, sobretudo, Lúcio Lara, 1999, e (...)
87 Quanto à estratégia do PAIGC em 1960, ver o nosso A
Independência..., cit., pp. 41 e segs., e 323 e (...)
83
Mas o PAI só vai afirmar-se publicamente aquando das
intervenções (e respectivos trabalhos preparatórios) dos representantes do
Movimento Anti-Colonialista (MAC) na II Conferência Pan-Africana, realizada em
Tunes, em fins de Janeiro de 1960. Assim acontece, além do mais, no (adiado)
texto definitivo do Manifesto do MAC onde o PAI aparece, ao lado do MPLA, como
um dos fundadores do MAC, de que ambos constituíam «a estrutura basilar»;
depois, nos documentos apresentados ou aprovados em Tunes e, sobretudo, a
propósito da substituição do MAC pela Frente Revolucionária Africana para a
Independência Nacional (FRAIN)86. De resto, entre Londres e Conakry, de Pequim
à sede da ONU, este ano de 1960 será marcado pela denúncia internacional do
colonialismo português e pela imposição do PAI. Depois, em Outubro de 1960, na
«Conferência de Quadros das Organizações Nacionalistas», realizada em Dacar, o
PAI altera definitivamente a sigla para PAIGC (sobretudo por duas razões: por
um lado, para reafirmar a política de Unidade Guiné-Cabo Verde; por outro, para
se demarcar do PAI senegalês, cujo dirigente Majhemout Diop fora detido,
acusado de «esquerdismo») e prepara a luta total pela independência87.
84
No citado Manifesto do MAC, a propósito da reacção portuguesa
ao nacionalismo africano, sustentava-se que, a partir de 1956, «o colonialismo
português desencadeou uma violenta repressão contra os Patriotas africanos e
contra os movimentos e organizações nacionalistas». Referiam-se vários
exemplos, como o «massacre de 50 africanos indefesos», ocorrido em Bissau, em
Agosto de 1959. Era a primeira vez que se contava tal número de vítimas.
88 Edmundo Rocha,1977, p. 159.
85
As reuniões, documentos e deliberações adoptadas em Tunes,
em Janeiro de 1960, originaram «uma transformação qualitativa, uma verdadeira
mutação»88 nos movimentos nacionalistas angolano e guineense. Mais ainda:
delimitaram algumas efemérides quer relativas à fundação do MPLA e do PAIGC
quer quanto ao número de cinquenta vítimas nos acontecimentos de 3 de Agosto
de 1959, no cais do Pindjiguiti (número esse que, apesar de não comprovado, se
generalizou, embora não se distinga entre mortos, feridos e desaparecidos).
89 Amílcar Cabral, 1976, pp. 101-102.
90 Aprovada pela citada II Conferência dos Povos Africanos.
91 Cfr. «Proclamação da acção directa» apud Amílcar Cabral,
1976, p. 35-36.
92 Assim, o «Memorandum» do PAIGC ao Governo português, de
Outubro de 1960, e o «Relatório Geral», apr (...)
86
O massacre do Pindjiguiti converteu-se no símbolo da libertação
da Guiné-Bissau — ou seja, «o dia da nossa pátria africana» — já que, no
contexto africano daquela época, foi promovido pelo PAIGC à «expressão
corajosa» da luta contra o domínio colonial, revelando-se, antes de mais, como
«primeira manifestação vigorosa da nossa consciência nacional, embora
embrionária»89. O «3 de Agosto» passou mesmo a ser o dia da solidariedade
internacional com os povos das colónias portuguesas, nos termos da primeira
resolução aprovada contra o colonialismo português90, e o dia da proclamação da
acção directa, na Guiné, em 1961, ou seja, o «dia da passagem da nossa
revolução nacional da fase da luta política à da insurreição nacional, à acção
directa contra as forças colonialistas»91. Ao que apurámos, é no texto desta «Proclamação...»
que, pela primeira vez, um documento do PAI (ou texto de Amílcar Cabral)
expressamente refere o total, quanto ao massacre «em Bissau, de 50
trabalhadores africanos em greve», pois que os outros documentos coetâneos
ainda se referiam, genericamente, ao massacre de «dezenas de trabalha dores
guineenses em greve»92. Conclui-se, em suma, que a perspectiva da
independência política só surge, na Guiné-Bissau, a partir de meados de
cinquenta e que, ao contrário de todas as precauções e previsões das
autoridades e investigadores portugueses, a subversão não veio do exterior da
Guiné, nem foi desencadeada por assodações influenciados pelo Islão. Começou
em Bissau, liderada por uma elite política urbana e crioula em busca de uma
organização independentista.
93 Para um resumo, Ronald H. Chilcote, 1971, Emerging
Nationalism in Portuguese Africa, California, St (...)
87
A década de 1950 fora de criação, divergências estratégicas
e tácticas e, ainda, de esforços para unificação das correntes nacionalistas.
No período subsequente, após as resoluções sobre a descolonização aprovadas
pela ONU em Dezembro de 1960, os movimentos nacionalistas privilegiarão a
defesa da nova legalidade internacional e os factores externos tomam-se as
determinantes fundamentais da aspiração à independência. Esta nova linha
predominará, na Guiné-Bissau, até aos princípios de 1963, e corresponde ao
período em que proliferam, no seio da emigração — sobretudo em Dacar, mas
também em Conakry — organizações nacionalistas guineenses e caboverdianas,
podendo distinguir-se, mais ou menos, quinze93.
94 Jean Ziegler, 1983, p. 185 (comparando Amílcar Cabral a
Mao Zedong).
88
Politicamente, o massacre do Pindjiguiti marcou a passagem
da agitação nacionalista para a luta de libertação nacional. Esta convergirá
num movimento nacionalista, o Partido Africano da Independência da Guiné e de
Cabo Verde (PAIGC), que prosseguia um programa de «Unidade e Luta» — unidade
(interna) do povo da Guiné e unidade (externa) com Cabo Verde — e de ampla luta
armada, desencadeada em 23 de Janeiro de 1963, segundo uma estratégia de guerra
de guerrilha e de «cerco das cidades pelos campos». O papel desempenhado por
Amílcar Cabral na organização desta passagem da luta anticolonial à luta armada
de libertação nacional foi, como resume Jean Ziegler, «Único, essencial,
determinante»94. Aquele movimento de libertação nacional tomar-se-á, com o
tempo, num «proto-Estado» e será internacionalmente reconhecido como
representante único e legítimo do povo da Guiné e de Cabo Verde. E mais ainda:
também ao contrário de todas as intenções portuguesas, a Guiné não foi uma
«colónia modelo», antes acabou, sim, por definir o modelo da descolonização
portuguesa e ser o paradigma da formação dos novos Estados nos PALOP.
89
O PAIGC ainda sobrevive como sigla. Tudo aquilo por que
lutou e chegou a alcançar — libertação nacional, paz, progresso,
independência, melhoria das condições de vida, unidade Guiné-Cabo Verde, um
Estado, uma Constituição — falhou, está em ruínas, desapareceu. Se a
libertação viera do campo, Bissau, a cidade, tudo devorou.
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Notas
1 Cfr. Marcello Caetano, 1977, Minhas Memórias de Salazar,
Lisboa, Verbo, p. 182.
2 Ver, sobretudo, José da Silva Horta & Eduardo da Costa
Dias, 2005, «História da Guiné Bissau» in Fernando Cristóvão (dir. e coord.),
Dicionário Temático da Lusofonia, Lisboa, Texto Editores, pp. 480/481;
«Sarmento Rodrigues (Manuel Maria)», in Grande Enciclopédia Portuguesa e
Brasileira, Vol. XXVII, pp. 754/755; e Comandante Sarmento Rodrigues, 1952, No
Governo da Guiné, 2.ª edição, Lisboa, Agência Geral do Ultramar.
3 António A. Peixoto Correia, 1980, «Notas sobre a acção do
Vire-Almirante Sarmento Rodrigues na Marinha e na Guiné», in Revista Militar,
Vol. 32, p. 25. Sobre Peixoto Correia, ver infra.
4 Henrique da Silva Horta, 1999, «O meu depoimento», in
AAVV, Almirante Sarmento Rodrigues (1899-1979) — Testemunhos e Inéditos no
Centenário do seu Nascimento, Academia da Marinha/Câmara Municipal de Freixo de
Espada-à-Cinta, pp. 146 e segs. Silva Horta, foi, em 1950, Capitão dos Portos
da Guiné e, posteriormente, Presidente da Câmara de Bissau.
5 Carlos Cardoso, s.d., A formação da elite política
guineense, Centro de Estudos Africanos (CEA/ ISCTE), «Occasional Papers
Series», p. 16, e, também, José da Silva Horta & Eduardo Costa Dias, 2005.
6 Comandante Sarmento Rodrigues, 1952, p. 159.
7 Rosemary E. Galli, 1994, «A ausência de capitalismo
agrário na Guiné-Bissau durante o regime do Estado Novo», in Soronda — Revista
de Estudos Guineenses, n.º 7, pp. 124/127.
8 Cfr. Diploma dos Cidadãos: relato da sessão do Conselho de
Governo da colónia da Guiné, de 20 de Setembro de 1946, e Comentários
publicados no Boletim da Agência Geral das Colónias, n.º 268, de Outubro de
1947, Bissau, 1947, p. 10. Também, da época, Sarmento Rodrigues, 1952,
pp.123/131; Honório Barbosa, 1947, «Os indígenas da Guiné perante a lei
portuguesa», in Boletim Cultural da Guiné Portuguesa (BCGPI, n.º 6, pp. 343 e
segs.; e Álvaro Silva Tavares, 1947, «Do Indigenato à cidadania: o Diploma
Legislativo n.º 1 346, de 7 de Outubro de 1946», in BCGP, n.º 8, pp. 853 e
segs.
9 António Carreira, 1959, «A população civilizada da Guiné
Portuguesa em 1950», in BCGP, n.º 56, pp. 549 e segs.
10 Álvaro da Silva Tavares in Jaime Nogueira Pinto (org.),
1993, Salazar visto pelos seus próximos (1946-1958), Venda Nova, Bertrand
Editora, p. 196. Silva Tavares será, além do mais, Governador da Guiné, entre
1956 e 1958.
11 Discurso do Ministro Teófilo Duarte apud A. Rodrigues
& R Moita, 1949, «Crónica da Colónia — Nomeação e posse do novo Governador
da Guiné, Capitão de Engenharia Raimundo António Rodrigues Serrão», in BCGP,
vol. VI, n.º 16, p. 746.
12 Discurso do Governador Raimundo Serrão, ibidem, p. 748.
13 Franco Nogueira, 1980, Salazar — Volume IV — O Ataque
(1945-1958), Coimbra, Atlântida, pp. 190-191.
14 Cfr. P. Karibe Mendy, 1994, Colonialismo português em
África: a tradição de resistência na Guiné-Bissau (1879-1959), Bissau, INEP,
pp. 328 e segs., e 1995-1999, «A perturbação da Pax Lusitana: resistência
passiva na Guiné "Portuguesa" durante os primeiros anos do Estado
Novo», in Revista Internacional de Estudos Africanos, n.ºs 18-22, pp. 192-193.
15 Philip J. Havik, 1995-1999, «Mundasson i Kambansa: espaço
social e movimentos políticos na Guiné-Bissau (1910-1994)», in loc. cit., p.
118; e, também, Joshua B. Forrest, 2003, Lineages of State Fragility: Rural
Civil Society in Guinea Bissau, Athens, Ohio University Press, pp. 127 e segs.
16 Ver, em resumo, Leopoldo Amado, «Da embriologia
nacionalista à guerra de libertação na Guiné-Bissau», apud
http://www.didinho.org/daembriologianacionalista.htm.
17 Cfr. Joaquim A. de Oliveira & Joaquim A. Areal, 1952,
«Crónica da Província», in BCGP, Vol. VII, n.º 28, pp. 846 e segs.
18 Carta de Raimundo Serrão, gabinete do Governador, datada
de Bissau, 15 de Outubro de 1952, in Arquivo Mário Soares, «Espólio Sarmento
Rodrigues — Correspondência», Pasta n.º 4290.01, Imagem 50.
19 Era esta, desde a reforma dos nomes geográficos ordenada
em 1948, a nova ortografia do acanhado «cais das lanchas», local onde
terminava a antiga muralha da cidade, junto de um poço recentemente tapado que
abastecia os habitantes e fora bravamente disputado pelos Papéis durante as
guerras com a «praça» — poço esse que está na origem do dito local bebeu a
água do Pindjiguiti, no sentido de ter ficado «amarrado à Guiné» (Cfr. A.
Teixeira Da Mota, 1954, Guiné Portuguesa, vol. II, Lisboa, Agência Geral do
Ultramar, p. 65). Aqui ocorreu, em 3 de Agosto de 1959, o «Massacre do
Pindjiguiti» (por vezes usa-se ainda, confundindo as ortografias tradicional e
da referida reforma de 1948, o termo «Pidjiguiti»).
20 Cfr. Joaquim A. de Oliveira & Joaquim A. Areal, 1953,
«Cróruca da Província — Visita de Sua Excelência o Subsecretário de Estado do
Ultramar, Prof. Doutor Raúl Jorge Rodrigues Ventura», in BCGP, Vol. VIII, n.º
29, pp. 525 e segs.
21 Cfr. Joaquim A. de Oliveira & Joaquim A. Areal, 1953,
«Crónica da Província — Posse do Encarregado do Governo [e] embarque do
Governador Raimundo Serrão», in loc. cit., pp. 570 e segs.
22 Cfr. Gilberto Freyre, s.d., Aventura e Rotina — Sugestões
de uma viagem à procura das constantes portuguesas de carácter e acção, 2.ª
ed., Lisboa, Livros do Brasil, pp. 420/421. Mello e Alvim foi nomeado
Governador da Guiné por decreto de 31 de Julho de 1953, publicado no Diário do
Governo, II Série, n.º 233, de 6 de Outubro de 1953.
23 Cfr. Joaquim A. de Oliveira & Joaquim A. Areal, 1954,
«Crónica da Província», in BCGP, vol. IX, n.º 33, pp. 207 e segs., e (Álbum),
1954, Guiné: início de um governo — 1954, Bolama, Imprensa Nacional da Guiné.
24 Carta de Diogo Mello e Alvim, Governador da Guiné, a
Sarmento Rodrigues, Ministro do Ultramar, datada de 23/10/1954, in Arquivo
Mário Soares, «Espólio Sarmento Rodrigues — Correspondência», Pasta n.º
4296.002, Imagem 7.
25 A. Teixeira Da Mota, 1954, pp. 47-48.
26 Cfr. BCGP, vol. IX, n.º 34, Abril de 1954, pp. 207 e
segs. O referido «Boletim Informativo» foi criado em 1953; foram publicados
quatro números (o n.º 4/5 é duplo), inseridos no jornal Ecos da Guiné (de
Bolama), que estão integralmente reproduzidos apud Estudos Agrários de Amílcar
Cabral, Lisboa/Bissau, IICT e INEP, 1988, pp. 181 e segs.
27 Nuno de Sotto-Mayor Quaresma Mendes Ferrão, 1997, O
Pensamento Colonial de Sarmento Rodrigues enquanto Ministro do Ultramar:
1950-1955, (Dissertação de mestrado em História Contemporânea), Faculdade de
Letras da Universidade de Lisboa, p. 113.
28 Quanto a este período, há arquivos por consultar. Quanto
ao «Arquivo da PIDE/DGS» e ao «Arquivo António Salazar» ver, entretanto,
Aristides Pereira, 2002, Guiné-Bissau e Cabo Verde — Uma luta, um partido, dois
países, Lisboa, Editorial Notícias, pp. 82-84; e Leopoldo Amado, «Da
embriologia nacionalista..», cit., e, ainda, «Simbólica de Pindjiguiti na
óptica libertária da Guiné-Bissau», apud
http://guineidade.blogs.sapo/pt/arquivo/1019191.html
29 Luís Fernando Dias Correia Da Cunha, 1968, «Alguns
Aspectos da Subversão na Província Portuguesa da Guiné», in Ultramar, Lisboa,
n.º 32, vol. VIII, p. 135, que, aliás, designa o MING por M.I.G.
30 Assim, Jean Mettas, 1984, La Guinée Portugaise au XX
siècle, Paris, Académie des Sciences d'Outre-Mer, p. 99 (citando Amílcar
Cabral, que entrevistou a propósito).
31 O. Ignátiev, 1984, Amílcar Cabral, Moscovo, Edições
Progresso, p. 81.
32 Sobre o episódio (que se tomou lendário), ver Luís
Cabral, 1984, Crónica da Libertação, Lisboa, Edições O Jornal, pp. 32/34.
Amílcar Cabral voltará a Bissau, para estas curtas estadias, em 1956, 1958 e
1959.
33 Sobre a visita, Rodrigues Matias (coord.), 1956, Diário
da viagem presidencial às províncias ultramarina da Guiné e Cabo Verde em 1955,
vol. I, Agéncia Geral do Ultramar.
34 Leopoldo Amado, «Simbólica... », cit., in loc. cit.
35 António George Cristóvão de Sousa Frankun, 1956, «A
ameaça islâmica na Guiné portuguesa», Comunicação apresentada ao IV Congresso
da União Nadonal, Lisboa, pp. 23 e 24. O Autor (licenciado, funcionário
administrativo em Tunor, na Guiné e no Ministério do Ultramar e que usou o
pseudónimo literário de António de Cértima) acentua também, em capítulo
autónomo, que os cabo-verdianos (que calculava em cerca de 1.700 residentes)
eram «o tipo de colono que a Guiné precisa» (op. cit., pp. 28 e segs.).
36 Henrique Pinto Rema, OFM, 1952, História das Missões
Católicas da Guiné, Braga, Editorial Franciscana, p. 855. A «Casa Gouveia» era
um estabelecimento da A. Silva Gouveia, Lda. (associada da CUF — Companhia
União Fabril), que monopolizava parte significativa dos produtos coloniais e se
dedicava a múltiplas actividades económicas.
37 F. Mendes, 1956, «Crónica da Província» in BCGP, Vol XI,
n.º 42, pp. 134-135.
38 In Jaime Nogueira Pinto (org.), 1993, p. 198. Relata o
seu mandato «Doutor Silva Tavares, Governador da Guiné, 1956-1958», in AAVV,
1994, Os últimos gvvernadores do império, Lisboa, Edições Neptuno, pp. 47 e
segs.
39 Apud, «Notas e Informações — Centro de de Estudos», in
BCGP, Vol. XII, n.º 45, Janeiro 1957, pp. 125 e segs.
40 Cfr. Elisée Turpin, «Depoimento», in
http://www.pajgc.org/DEPOIM~1.HTM e declarações de Abílio Duarte e Aristides
Pereira, in José Vicente Lopes, 1996, Cabo Verde — Os Bastidores da
Independênda, Praia-Mindelo, Centro Cultural Português, pp. 40 e segs. Fernando
Fortes diz recordar-se de um documento que «continha essencialmente o
juramento» («Fernando Fortes evoca a criação do PAIGC» in Nô Pintcha, n.º 75,
de 18/9/1975).
41 Existem múltiplas referências em textos de Amílcar Cabral
(quanto à citação, cfr. , «Os princípios do partido e a prática política», in
Obras Escolhidas de Amílcar Cabral, Vol. I, Lisboa, Seara Nova, 1976, p. 146).
Ver os relatos de Luis Cabral, 1984, pp. 42 e segs., Fernando Fortes, 1975,
«Fernando Fortes evoca a criação do PAIGC» in Nô Pintcha, n.º 75, de 18/9/1975;
Aristides Pereira, 2002, p. 86; Elisée Turpin, «Depoimento», in loc. cit., e as
significativas reticências e Abílio Duarte, in José Vicente Lopes, 1996.
42 Jean Ziegler, 1983, Les Rebelles — Mouvements armés de
libération nationale du Tiers Monde, Paris, Éditions du Seuil, pp. 184-186.
43 Luís Cabral, 1984, pp. 49 e segs.
44 Cfr. Patrick Chabal, 1983, Amílcar Cabral —
Revolutiornary leadership and people's war, Cambridge, University Press, p. 56;
e Gérard Chaliand, 1967, Lutte armée en Afrique, Paris, François Maspero, p.
34. Ver, ainda, sobre esta fase (embora com erros e parecendo-nos exagerar na
implantação do PAI), Mustafah Dhada, 1993, Warriors at Work, Colorado,
University Press, pp. 1 e segs., e, quanto à (posterior) implantação rural e
mobilização multi-étnica do PAIGC, Joshua B. Forrest, 2003, pp. 181 e segs.
45 Maria Sofia Carrajola Pomba do Amaral Guerra, licendada
em Farmácia, pertenceu à Direcção dos Jovens Democratas de Moçambique (ligada
ao MUD Juvenil) e, acusada de militância no PCP, partiu para Bissau (juntamente
com o marido), após os «processos de 1949». Nomeada membro residente do CEGP,
publicou o artigo «Amendoim e palmeira de azeite — Pilares económicos da Guiné
Portuguesa», in BCGP, Vol. VI, Janeiro de 1952, n.º 25, pp. 9/83. Manteve
intensa actividade cultural e pedagógica (por exemplo, fez, em 1952, no
Colégio-Liceu, uma palestra sobre «Grandeza intelectual e moral e dentistas
notáveis») e a militância política, sempre vigiada pela PIDE (cfr. José Pacheco
Pereira, 2005, Álvaro Cunhal — Uma biografia política — O prisioneiro
(1949-1960), Lisboa, Temas e Debates, pp. 529-530). Foi, no resumo de Luís
Cabral, «a amiga e conselheira de cada um de nós» (1984, p. 39).
46 In Arquivo Mário Soares — Documentos Mário de Andrade,
pasta 4337.005, Imagem 136. Ver, também, Julião Soares Sousa, 2003, «Os movimentos
unitários anti-colonialistas (1954-1960). O contributo de Amílcar Cabral», in
Luís Reis Torgal e Luis Oliveira Andrade, Colonialismo, Anticolonialismo e
Identidades Nacionais — Estudos do Século XX, Universidade de Coimbra,
Quarteto, pp. 338 e segs.
47 Mário Pinto De Andrade, 1997, Uma entrevista dada a
Michel Laban, Lisboa, Edições João Sá da Costa, p. 142.
48 Edmundo Rocha, 1977, «A Casa dos Estudantes do Império
nos anos de fogo», in AAVV. Mensagem – Número Especial, Lisboa, Associação Casa
dos Estudantes do Império, p. 106.
49 Entrevista de Tomás Medeiros, apud Dalila Cabrita MATEUS,
1999, A Luta pela Independência — A Formação das Elites Fundadoras da FRELIMO,
MPLA e PAIGC, Lisboa, Inquérito, p. 260.
50 Filinto de Barros, 1997, Kikia Matcho, Bissau, Centro
Cultural Português, p. 18.
51 Hélio Felgas, 1967, Guerra na Guiné, Lisboa, Speme, p.
45, e, 1966, Os movimentos terroristas de Angola, Guiné e Moçambique
(influência externa), Lisboa, pp. 44 e segs.; ver também Leopoldo Amado, «Da
embriologia...» e «Simbólica ...», cit., in loc. cit.. Sobre José Ferreira de
Lacerda, ver António E. Duarte Silva, 1997, A Independência da Guiné-Bissau e a
Descolonização Portuguesa, Porto, Afrontamento, p. 54.
52 Cfr. Joaquim Areal, «Crónica da Província», in BCGP, n.º
50, p. 220/222.
53 Conforme descrição de Joaquim Areal, «Crónica da
Província», in BCGP, n.º 51, pp. 376 e segs.
54 Relatório enviado a Marcello Caetano, Ministro da
Presidência, em 8 de Novembro de 1956, citado por Cláudia Castelo, 1999, «O
Modo Português de Estar no Mundo». O luso-tropicalismo e a ideologia colonial
portuguesa (1933-1961), Porto, Afrontamento, p. 104. No mesmo sentido, Richard
Patiee, 1959, Portugal na África Contemporânea, Coimbra, Faculdade de Letras
(Instituto de Estudos Ultramarinos), sobretudo pp. 581 e segs. (salientando,
por um lado, a «franca expansão» do Islão e, por outro, a «pressão cada vez
maior dos territórios vizinhos, não só no campo religioso, mas também no
político»).
55 J. M. da Silva Cunha. 1959, Missão de Estudo dos
movimentos associativos em África. Relatório da Campanha de 1958 (Guiné),
Lisboa, Junta de Investigações do Ultramar, pp. 98 e 99.
56 Centro de Estudos Politicos e Sociais, Conselho
Orientador, Acta n.º 9 (borrão), de 5/6/1959 (dactilografado), pp. 7-8.
57 Cfr. Joaquim Areal, «Crónica da Província», in BCGP, n.º
53, pp. 125 e segs..
58 Armando Castro, 1980, O Sistema Colonial Português em
África (meados do século XX), Lisboa, Caminho, pp. 366-368.
59 Idem, op. cit., pp. 15-16.
60 Idem, «Crónica...», cit. loc cit., pp. 139-140.
61 Segundo o relatório do Conselho Superior da Defesa
Nacional, de 29 de Agosto de 1959, citado por António José Telo, 1977-1978, «A
mudança — 1959», in Aniceto Afonso & Matos Gomes, Guerra Colonial — Angola,
Guiné, Moçambique, Lisboa, Diário de Notícias, pp. 26-27. Ver, ainda, John P.
Cann, 1998, Contra-Insurreição em Ajrica — o Modo Português de Fazer a Guerra
(1961-1974), S. Pedro do Estoril, Atena, pp. 63 e segs.
62 Cfr. Joaquim Areal, «Crónica da Provmcia» , in BCGP, n.º
56, p. 737.
63 Cfr. a entrevista do marechal Costa Gomes in Drumond
Jaime & Hélder Barber (org.), 1999, Angola: Depoimentos para a História
Recente,1.º Volume, Luanda, Edição dos Autores, pp. 285/286.
64 Depoimento de Sido Balde, 50 anos, guarda da Polida, in
Nô Pintcha, n.º 56, de 2/8/1975, p. 9.
65 Depoimento deSalio Camará, 56 anos, cabo da Polida, in Nô
Pintcha, n.º 56, de 2/8/1975, p. 9.
66 Henrique Pinto Rema, 1966, p. 856 (com base nos números
de 6, 20 e 21 de Agosto de O Arauto, diário do clero católico, e nas notas do
Guarda da PSP, Francisco Valoura).
67 Cfr. «[Relatório] Confidencial do Comandante da Defesa
Maritima, cap. ten. Raul de Sousa Machado, ao Estado Maior da Armada, de 18 de
Agosto de 1959» (de 5 folhas dactilografadas, «desclassificado» em 10/3/2003),
apud Luís Sangjes De Bmna, 2006, Fuzileiros — Livro III — Crónica dos Feitos da
Guiné (1962/1974), Comissão Cultural da Marinha, Edições Inapa, pp. 238-242.
68 Assim, «[Relatório] Confidencial do Comandante...», cit.,
fls. 2. apud loc. cit.
69 Cfr. «Documentos Inéditos do 3 de Agosto de1959 —
Confidencial n.º 27, endereçada ao «[...] Inspector Manuel Bento Gomes
Ferreira»», apud Nô Pintcha, n.º 56, de 2/8/1975 (trata-se de uma edição
especial subintitulada O Massacre do Pidjiguiti — 16 anos depois, de 14 págs.),
pp. 6 e 10. O citado «inquérito administrativo» consta dos «documentos oficiais
encontrados nos arquivos da antiga administração colonial-fascista».
Acrescente-se que os nove mortos e catorze feridos estão todos identificados
(nome, profissão e firma em que trabalhavam), os primeiros enquanto «indígenas
manjacos mortos» e os segundos enquanto «marítimos feridos nos incidentes de 3
do corrente».
70 Assim, «[Relatório] Confidencial do Comandante...», cit.,
fls. 2, apud loc. cit., Segundo Mário António FERNANDES DE OliVEiRA (dir.),
1979, A Descolonização Portuguesa — Aproximação a um estudo, Vol. I, Lisboa,
Instituto Democracia e Liberdade, p. 209, a greve dos estivadores manjacos e a
repressão de 3 de Agosto provocaram «sete mortos e 15 feridos», citando o
jornal A Província de Angola, de 6/8/59 e 29/8/59, e o relato do correspondente
«Comunicado oficial» (que não encontrámos).
71 Cfr. «Documentos...», cit., apud loc. cit., p. 10. Ocante
Benunte seria militante do PAI e a sua biografia consta do artigo «Irmão
Ocante, herói do povo», in loc. cit., pp. 5 e 10.
72 «[Relatório] Confidencial do Comandante...», cit., fls.
3, apud loc. cit..
73 Assim, «[Relatório] Confidencial do Comandante...», cit.,
fls. 3 e 4, apud loc. cit..
74 Mário Dias, «Guiné 63/74 — DXXXV: Pidjiguiti, 3 de Agosto
de 1959: eu estive lá», in http://blogueforauada.blogspot.com/. Mário Dias
(ex-sargento comando, Brá, 1963/66) partiu para a Guiné em 1952, com quinze
anos, e regressou a Portugal (Alhos Vedros) em 1966.
75 Leopoldo Amado, «Simbologia...», dt., in loc. cit.
76 Cfr. «Rafael Barbosa, mito do nacionalismo africano, ao
Público», in Público, de 6/12/1999, p. 19. António Nola foi um dos três
«elementos indígenas considerados preponderantes nos acontecimentos do passado
dia 3» — cfr. «António Nola Marinheiro Heróico» e «Documentos Inéditos do 3 de
Agosto de 1959 — Confidencial n.º 26», apud Nô Pintcha, n.º 56, de 2/8/1975,
pp. 6 e 10. Também Hélio FELGAS, 1967, p. 45, destaca que o MLG «gostava de
insinuar que fora o impulsionador dos incidentes».
77 Alexander Keese, 2003, «"Proteger os pretos".
Havia uma mentalidade reformista na administração portuguesa na África Tropical
(1926-1961)?», in Africana Studia, n.º 6, pp. 116/117. Sobre os acontecimentos,
há também importantes testemunhos de Carlos Fabião in José Freire Antunes,
1995, A Guerra de África (1961-1974), Lisboa, Círculo de Leitores, pp. 363/364,
e de Carlos Correia, Lourenço Gomes, bem corno a reportagem de José Upadai
Gomes, «Marinheiros sobreviventes do Pidjiguiti relatam o massacre» in Nô
Pintcha, n.º 56, de 2/8/1975, cit., pp. 11 e 4/5, respectivamente. Ver, ainda,
o «Guião» do (incompleto) filme de Chris Marker, «Massacre de Pidjiguiti.1959.
PAIGC», apud Arquivo Mário Soares Documentos Mário de Andrade, pasta 4357,012.
78 «Carta de Amílcar Cabral a Ruth Lara», apud Lúcio Lara,
1999, Documentos e Comentários para a História do MPLA, Lisboa, Publicações Dom
Quixote, pp. 119-120.
79 «Relatório de Amílcar Cabral» apud Lúcio Lara, 1999, pp.
153-155.
80 «Carta do MAC à Conferência Pan-Africana», apud Lúcio
Lara, 1999, pp. 141-142.
81 «Carta de Amílcar Cabral» apud Lúcio Lara, 1999, p.
161-162.
82 Assim, Julião Soares Sousa, 2003, p. 344.
83 Este «Relatório da reunião de 19 de Setembro de 1959» foi
dado a conhecer por Basil Davidson, 1969, Révolution en Afrique — la libération
de la Guinée Portugaise, Paris, Seuil, pp. 36-37. Ainda não encontramos o
documento original, mas tudo indica que a sua redacção é algo posterior à
referida reunião.
84 Está publicada apud Mário de Andrade, 1980, Amilcar
Cabral, Paris, Maspero, pp. 90-91.
85 O original em francês (e a tradução portuguesa)
encontram-se apud Amílcar Cabral — Sou um simples africano…, Fundação Mário
Soares, 2000, p. 23.
86 Sobre o Manifesto do MAC e a Conferência Pan-Africana de
Tunes, ver, sobretudo, Lúcio Lara, 1999, e Edmundo Rocha, 2003, Angola —
Contribuição ao estudo da génese do nacionalismo moderno angolano (período
1950-1964), Edição do Autor (Kilombelombe), Lisboa, 2003, pp. 160 e segs. A
dita FRAIN será, em 1961, substituída pela CONCP Conferência das Organizações
Nacionalistas das Colónias Portuguesas.
87 Quanto à estratégia do PAIGC em 1960, ver o nosso A
Independência..., cit., pp. 41 e segs., e 323 e segs.
88 Edmundo Rocha,1977, p. 159.
89 Amílcar Cabral, 1976, pp. 101-102.
90 Aprovada pela citada II Conferência dos Povos Africanos.
91 Cfr. «Proclamação da acção directa» apud Amílcar Cabral,
1976, p. 35-36.
92 Assim, o «Memorandum» do PAIGC ao Governo português, de
Outubro de 1960, e o «Relatório Geral», apresentado na reunião de Dacar, de 12
a 14 de Julho de 1961.
93 Para um resumo, Ronald H. Chilcote, 1971, Emerging
Nationalism in Portuguese Africa, California, Stanford University, Hoover
Institution Press, pp. 603-607.
94 Jean Ziegler, 1983, p. 185 (comparando Amílcar Cabral a
Mao Zedong).
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Para citar este artigo
Referência do documento impresso
António E. Duarte Silva, « Guiné-Bissau: a causa do
nacionalismo e a fundação do PAIGC », Cadernos de Estudos Africanos, 9/10 | -1,
142-167.
Referência eletrónica
António E. Duarte Silva, « Guiné-Bissau: a causa do
nacionalismo e a fundação do PAIGC », Cadernos de Estudos Africanos [Online],
9/10 | 2006, posto online no dia 27 maio 2014, consultado o 09 dezembro 2018.
URL : http://journals.openedition.org/cea/1236 ; DOI : 10.4000/cea.1236
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